A Ordem Invisível das Coisas
A casa não estava suja. A bagunça era outra.
As gavetas continuavam
fechando direito, os pratos ainda ocupavam o mesmo armário, as toalhas dobradas
permaneciam alinhadas como soldados cansados cumprindo uma disciplina antiga.
Quem olhasse de fora talvez dissesse que ali morava um homem organizado. E
morava. Durante muitos anos, Augusto havia aprendido a manter tudo no lugar
porque acreditava que a ordem das coisas protegia a vida de desabar.
As contas pagas antes do
vencimento.
As chaves sempre no mesmo gancho.
Os domingos reservados para o almoço em família.
As palavras escolhidas com cuidado para não ferir ninguém.
Só que existem tempestades
que não entram pela janela. Elas atravessam gente.
E quando atravessam, não
derrubam vasos nem arrancam telhados. Desorganizam certezas.
Tudo começou a sair do eixo
na semana em que Clara foi embora. Não houve gritos, pratos quebrados ou portas
batendo. Talvez Augusto tivesse suportado melhor se houvesse violência
suficiente para justificar o estrago. Mas ela apenas arrumou duas malas numa
manhã comum, deixou a xícara de café pela metade sobre a mesa e disse que não
conseguia mais continuar vivendo uma vida onde ela própria já não se
encontrava.
Depois beijou o filho na
testa.
E saiu levando metade das
roupas e um silêncio que continuou morando ali.
Augusto ficou.
Ficou porque alguém
precisava lembrar os horários da escola, separar uniforme limpo, inventar
respostas simples para perguntas impossíveis. Ficou porque o menino ainda
precisava dormir ouvindo que tudo ficaria bem, mesmo quando ele próprio já não
acreditava muito nisso.
Foi aí que começou a perder
horários pequenos. Depois esqueceu compromissos importantes. Um dia saiu para
comprar pão e terminou sentado num banco perto do lago muito depois do horário
de voltar, olhando pessoas desconhecidas passarem como quem tenta reconhecer um
mundo do qual já não consegue participar direito.
Quando percebeu, o pão
ainda estava intacto dentro da sacola ao lado dos pés.
Havia roupas acumuladas
sobre a cadeira do quarto — coisa que jamais fazia. Correspondências abertas
pela metade. Um copo amanhecendo sobre a pia por três dias consecutivos.
Pequenos sinais de que alguma engrenagem invisível havia parado de funcionar.
Mas a verdadeira bagunça
estava em outro lugar.
No modo como acordava no
meio da madrugada e escutava o filho chorando baixinho no quarto ao lado,
tentando não fazer barulho suficiente para preocupar o pai.
Na irritação repentina diante de perguntas simples.
Na dificuldade de permanecer em conversas longas sem sentir vontade de
desaparecer delas.
Na sensação de que o mundo inteiro seguia obedecendo alguma lógica secreta da
qual ele tinha sido retirado sem aviso.
Algumas pessoas chamavam
aquilo de cansaço. Outras de tristeza. Houve quem dissesse que era só uma fase.
Augusto não sabia dar nome.
Sabia apenas que existiam
dias em que a alma parecia um armário aberto depois de um terremoto — memórias
misturadas com culpa, medo empilhado sobre silêncio, restos de esperança presos
entre coisas que já deveriam ter sido jogadas fora.
E ainda assim ele seguia.
Às vezes passava horas
reorganizando gavetas como se pudesse, através delas, colocar o próprio peito
em ordem novamente. Dobrava camisetas devagar, alinhava talheres, limpava
cuidadosamente uma mesa que nem estava suja. Como se cada pequeno gesto dissesse
ao mundo: ainda existe alguma coisa aqui que não se perdeu completamente.
Numa tarde de chuva
encontrou uma fotografia antiga caída atrás do móvel da sala. Não era uma
imagem importante. Nenhum aniversário. Nenhuma viagem. Apenas ele, mais jovem,
segurando uma xícara de café enquanto ria de algo que a fotografia não guardou.
Augusto ficou olhando
aquele homem por muito tempo.
Estranhou perceber que
sentia saudade de si mesmo.
Do homem que acreditava
entender a direção da própria vida. Do homem que conseguia dormir sem conversar
mentalmente com fantasmas. Do homem que não carregava dentro do peito aquela
sensação permanente de casa revirada depois da ventania.
Lá fora, o vento arrastava
folhas pela calçada. Algumas rodopiavam sem destino antes de desaparecer rua
abaixo.
No quarto, o filho dormia
abraçado num moletom antigo da mãe que ainda guardava um perfume quase apagado.
Augusto observou aquilo da
porta sem coragem de entrar.
E teve a impressão de que
certas pessoas, quando vão embora, não levam apenas malas.
Levam a ordem invisível que
sustentava os dias.
Silvia Marchiori Buss
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