A Lua Parecia Oceano
A lua parecia oceano. Não pela cor, nem pelo brilho.
Parecia oceano porque
carregava profundezas.
Da janela do apartamento,
Clara observava o céu. A cidade diminuía de volume à medida que a noite
avançava. Um ônibus passava ao longe. Uma porta se fechava em algum lugar. Um
cachorro latia sem convicção.
No alto, a lua derramava
sobre os telhados uma luz tão serena que as casas pareciam embarcações
ancoradas num mar imóvel.
Clara apoiou os braços no
peitoril.
Havia noites em que a
saudade chegava como tempestade.
Naquela, veio como maré.
Devagar.
Sem anúncio.
Apenas chegou tomando seu
espaço entre um pensamento e outro.
O vento da madrugada entrou
pela janela e tocou seus cabelos. Ela fechou os olhos por um instante.
A memória tem seus próprios
caminhos.
Às vezes atravessa décadas
para devolver um gesto.
Às vezes escolhe uma frase
qualquer e a deposita no presente como quem devolve algo perdido.
Quando abriu os olhos, a
lua continuava lá.
Redonda.
Imensa.
Silenciosa.
Parecia oceano.
E havia uma estranha
semelhança entre aquela luz distante e certas lembranças. Quanto mais os anos
avançavam, menos elas ocupavam os dias e mais habitavam os silêncios.
Surgiam sem anunciar.
Num perfume esquecido
dentro de um armário.
Numa canção que escapava de
um rádio.
Numa palavra repetida por
alguém na rua.
E permaneciam ali,
ondulando mansas sob a superfície da vida, como águas profundas que já não
precisavam provar sua existência.
Uma lágrima escorreu pelo
rosto de Clara.
Ela não a enxugou.
Algumas lágrimas não pedem
consolo.
Apenas passagem.
O relógio da sala continuou
seu trabalho paciente.
Os ponteiros avançavam.
As horas mudavam.
A lua seguia imóvel.
Por um momento, Clara teve
a impressão de que o céu inteiro respirava.
A mesma respiração lenta de
quem observa o mar sem esperar nada dele.
A mesma respiração de quem
reconhece uma presença sem precisar vê-la.
O vento moveu a cortina.
A casa permaneceu em
silêncio.
E o silêncio não parecia
vazio.
Parecia companhia.
Clara sorriu.
Um sorriso pequeno.
Quase imperceptível.
Daqueles que não nascem dos
lábios, mas de algum lugar muito mais antigo.
Lá fora, a lua seguia
iluminando telhados, árvores, ruas e janelas.
Iluminava também aquilo
para o qual faltavam palavras.
As ausências.
As lembranças.
Os afetos que continuam
atravessando os anos sem envelhecer.
Ela ficou observando o céu
até sentir o frio da madrugada.
Depois fechou a janela.
A lua permaneceu do lado de
fora.
Mas o oceano veio com ela.
Silvia Marchiori Buss
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