O Que Não é Maleável Quebra
Há coisas que nascem com a pretensão de durar para sempre. Não por força, mas por rigidez. Como se permanecer fosse sinônimo de não ceder, de não dobrar, de não escutar o movimento do mundo.
Ela pensava assim — sem dizer em voz alta, mas vivendo
como quem sustenta uma linha invisível dentro do peito. Gostava das certezas
bem alinhadas, das respostas prontas, dos gestos que não mudam de direção.
Havia um certo conforto em saber exatamente onde colocar os pés, mesmo quando o
chão já não era o mesmo.
Foi assim nas relações. Amou como quem constrói uma casa
de paredes muito firmes. Bonita, por fora. Segura, aparentemente. Mas sem
janelas largas o suficiente para o vento entrar. Sem espaço para que o outro
pudesse, às vezes, ser diferente do que se esperava.
E o mundo, como sempre faz, não pediu licença.
Mudou os horários, os humores, os afetos. Trouxe
silêncios onde antes havia palavras. Aproximou distâncias que pareciam
definitivas e afastou presenças que pareciam eternas. Nada violento. Apenas
inevitável.
Ela resistiu.
Endureceu um pouco mais. Ajustou os gestos, apertou os
dias, segurou as expectativas com mais força — como se o controle fosse capaz
de impedir o que já estava em movimento.
Não foi de uma vez.
O que quebra quase nunca anuncia. Vai trincando por
dentro, em lugares onde ninguém vê. Um detalhe aqui, outro ali. Uma palavra
engolida, um olhar que já não encontra, um cansaço que não tem nome.
Até que um dia — qualquer dia — algo não encaixa mais.
E não há barulho.
Só um certo desalinho. Como se a vida, de repente, não
coubesse mais dentro da forma que ela insistiu em manter.
Foi ali, nesse quase imperceptível, que ela percebeu: não
era o mundo que precisava se ajustar. Era ela.
Não para se desfazer.
Mas para aprender outra maneira de existir.
Começou pequeno. Um gesto que antes não permitiria. Um
silêncio que não exigia resposta. Uma escuta sem pressa de corrigir. Como se,
aos poucos, abrisse frestas naquilo que sempre manteve fechado.
Não virou outra pessoa.
Mas deixou de ser inteira pedra.
E foi curioso — porque, ao ceder, não perdeu forma.
Ganhou movimento.
Há uma espécie de força que não está em resistir a tudo,
mas em saber onde dobrar. Onde soltar. Onde não insistir até o ponto de
ruptura.
Nem tudo que permanece é firme.
Algumas coisas continuam justamente porque aprendem a
mudar.
E há dias em que ela ainda se pega tentando endurecer de
novo — é antigo, quase automático. Mas agora reconhece o sinal antes do estalo.
Respira.
E, sem fazer alarde, escolhe não quebrar.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário