A Casa das Janelas Tortas
Diziam que aquela era a casa mais estranha da rua.
As janelas não eram
alinhadas. Algumas fechavam mal, outras deixavam entrar vento mesmo quando
estavam trancadas. O telhado carregava marcas do tempo, e a pintura descascada
denunciava anos de chuva, calor e tempestades.
Ainda assim, havia flores
na varanda.
Quem morava ali era Aurora,
uma mulher que já colecionara mais despedidas do que aniversários. Perdera
sonhos, amores, oportunidades e pessoas que julgava insubstituíveis. Em alguns
períodos da vida, acreditou que a felicidade fosse um endereço reservado aos
outros.
Certa tarde, uma jovem que
passava pela rua perguntou:
— A senhora nunca pensou em
reformar essa casa?
Aurora sorriu.
— Pensei muitas vezes.
— E por que não fez?
Ela olhou para as paredes
irregulares.
— Porque cada rachadura me
ensinou alguma coisa.
A moça não entendeu.
Aurora apontou para uma
marca escura próxima à porta.
— Ali foi o ano em que
perdi meu marido.
Depois indicou uma janela
empenada.
— Aquela foi a época em que
precisei recomeçar quando já não tinha idade para recomeços.
Por fim, mostrou uma
pequena roseira.
— E aquilo nasceu
justamente quando eu acreditava que nada mais floresceria.
A jovem permaneceu em
silêncio.
A casa não era bonita como
as das revistas. Não era perfeita. Não era nova.
Mas estava viva.
Naquela noite, quando a rua
mergulhou no escuro, as luzes da casa de Aurora acenderam-se uma a uma. Pelas
frestas das janelas escapavam fios dourados de luz que se espalhavam pela
calçada.
As pessoas que passavam
diminuíam o passo sem saber exatamente por quê.
Havia casas mais bonitas.
Casas mais modernas. Casas sem rachaduras.
Mas nenhuma parecia guardar
tantas histórias.
Aurora fechou a porta,
regou as flores da varanda e entrou.
A casa continuou de pé, com
suas janelas tortas, suas marcas e seus remendos.
Como a vida.
Nem sempre bonita.
Nem sempre justa.
Mas cheia de razões para
manter a luz acesa.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário