Na Alegria e na Tristeza

O dia do casamento amanheceu com uma luz quase indecisa, como se o céu também hesitasse diante do que viria. Na igreja, as flores tentavam organizar a beleza, e havia um cuidado excessivo em cada detalhe — o véu alinhado, os bancos ocupados por expectativas, o padre repetindo com serenidade palavras antigas que atravessaram gerações. “Na alegria e na tristeza” não soava como promessa difícil naquele instante; era apenas uma sequência natural de sons, acolhida por quem acredita que o amor, uma vez declarado diante de testemunhas e de Deus, encontra sozinho o caminho de permanecer.

Ele a observava como quem tenta guardar uma paisagem antes que a noite caia. Havia nela uma tranquilidade que não parecia ensaiada, um modo de segurar o próprio nome quando o padre o pronunciou, como se já o tivesse dito muitas vezes em silêncio. Quando respondeu “sim”, não houve tremor — e isso, naquele dia, foi tomado como força.

A vida, depois, se encarregou de desfazer a ideia de que as promessas caminham por conta própria. Vieram os dias comuns, os que não cabem em fotografia: a louça esquecida na pia, as conversas interrompidas por cansaço, os pequenos silêncios que ninguém se dispõe a atravessar. Ainda assim, houve ternura — gestos mínimos que sustentavam alguma coisa que eles não sabiam nomear, mas que bastava.

Até que deixou de bastar.

Não houve uma cena exata para marcar o início do fim. Nenhuma frase definitiva, nenhum gesto irreversível. Apenas uma espécie de deslocamento quase imperceptível, como quando um objeto muda de lugar dentro da casa e ninguém percebe, até esbarrar nele no escuro. Ela começou a recolher partes de si que antes estavam espalhadas pela vida dos dois. Ele, por sua vez, demorou a entender que a ausência não começa na partida — começa no modo como alguém passa a não estar, mesmo estando.

Quando ela se foi, não levou quase nada do que se poderia listar. As roupas continuaram no armário por alguns dias, os livros permaneceram nas estantes, e até o perfume insistiu em habitar o ar dos cômodos. O que faltou não tinha forma, não ocupava espaço visível, mas era impossível não notar.

Ele tentou, nos primeiros dias, sustentar uma normalidade que já não encontrava apoio. Preparava café para dois, esquecia de beber o próprio. Ligava a televisão sem saber o que assistia. Caminhava pela casa como quem procura algo que nunca foi guardado em lugar fixo. Havia uma espécie de incredulidade persistente, como se o mundo tivesse se adiantado a um entendimento que ainda não chegou.

Nunca imaginou depender tanto de alguém. Não no sentido prático — ele sabia cuidar de si, organizar a vida, cumprir horários. A dependência que descobriu era outra, mais silenciosa, feita de presenças que não se nomeiam enquanto existem. Era o hábito de dividir o pensamento, de ter a quem recorrer sem precisar explicar o motivo, de ser visto sem esforço.

A tristeza não veio como tempestade. Instalou-se com a delicadeza de quem pede licença e, uma vez dentro, passa a rearranjar tudo. Tornou-se companhia constante, não invasiva, mas impossível de ignorar. A dor, por sua vez, não se apresentava em grandes gestos — preferia os intervalos, os momentos em que nada parecia acontecer e, ainda assim, algo insistia em faltar.

Houve dias em que ele tentou lembrar exatamente o que disseram um ao outro naquele altar. Não as palavras conhecidas, repetidas por tantos, mas o que havia por trás delas — aquilo que se promete sem saber como cumprir. Percebeu, com um certo atraso, que talvez ninguém saia de uma igreja levando garantias. Leva-se apenas a intenção, e a intenção, com o tempo, precisa aprender a sobreviver fora das cerimônias.

A casa seguiu de pé, como fazem as casas. A cidade continuou a cumprir seus horários, indiferente às rupturas que não alteram o trânsito nem o comércio. E ele, pouco a pouco, foi aprendendo a existir dentro de um espaço que não era mais o mesmo, embora nada nele tivesse mudado de lugar.

Às vezes, ao passar pela igreja, não entra. Fica do lado de fora, observando as portas como quem reconhece um lugar que já não sabe se pertence. Não há revolta evidente, nem tentativa de encontrar culpados. Há apenas uma espécie de entendimento incompleto, desses que não se fecham em frase alguma.

Ele segue. Não porque encontrou um caminho claro, mas porque permanecer parado também exige uma força que já não tem. Entre um gesto e outro, entre um dia e o seguinte, a vida vai se rearranjando sem pedir autorização, e ele vai junto, sem saber exatamente em que direção.

Algumas promessas continuam ali, suspensas, como se ainda esperassem o momento certo de acontecer. Outras parecem ter se dissolvido no tempo, sem deixar vestígio que se possa tocar.

E, no meio disso, ele permanece — não inteiro, não perdido — apenas alguém que aprendeu, tarde demais ou talvez no tempo possível, que certas ausências não terminam quando alguém parte.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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