Um Ruido Dentro de Mim

Na terceira madrugada seguida, acordei com o barulho.

Não era sonho. Também não era insônia. Era um som miúdo, metálico, como se alguém, do lado de dentro do peito, estivesse desmontando uma máquina antiga peça por peça.

Fiquei imóvel.

O quarto escuro parecia respirar junto comigo. O ponteiro do relógio avançava com sua disciplina indiferente. Mas o ruído não obedecia a horário. Vinha em ondas. Pequenos estalos, como gelo rachando sob um lago invisível.

Passei a mão sobre o peito, como quem verifica um bolso esquecido. Nada.

No dia seguinte, fui ao médico. Ele auscultou, franziu a testa, pediu para eu inspirar fundo. Não encontrou defeito algum. Meu coração estava regular, meus pulmões obedientes. “Ansiedade”, disse, com a delicadeza dos que nomeiam o que não veem.

Voltei para casa com uma palavra e o ruído intacto.

À tarde, enquanto descascava uma maçã, ele reapareceu — um clique seco, depois outro. A faca escorregou da minha mão e caiu na pia. Por um segundo tive certeza de que havia engrenagens sob minha pele. Como se alguém tivesse me construído com peças reaproveitadas de uma cidade abandonada.

Comecei a ouvir melhor quando ficava sozinha.

O som parecia organizar-se quando eu me calava. Como se dependesse do silêncio para existir. Não do silêncio externo — o da rua sempre continuava — mas de um silêncio interno, raro e desconfortável.

Numa dessas pausas, ouvi algo diferente: um sopro.

Não era ar. Era como papel sendo desdobrado.

Fui até o espelho.

Meu reflexo me observava com um leve atraso, quase imperceptível. Pisquei. Ele piscou depois. Não muito depois. Apenas o suficiente para que eu notasse.

Ali compreendi que o ruído não vinha de algo quebrado.

Era costura.

Alguma parte minha estava sendo desfeita e refeita. Como se um alfaiate invisível ajustasse uma roupa que já não servia. Pontos sendo desatados, linhas novas sendo puxadas.

Durante dias, temi que, ao acordar, eu fosse outra pessoa. Com outro nome, outra memória, outra história.

Mas não.

Eu continuava sendo eu — apenas menos encaixada no que já fui.

O ruído cresceu numa noite de chuva. Sentei no chão da cozinha, as costas no armário, e deixei que ele trabalhasse. Senti, pela primeira vez, que não era ameaça. Era processo.

Como o som de asas abrindo dentro de um casulo.

Não houve explosão. Não houve milagre.

Apenas uma manhã em que acordei e o mundo parecia levemente deslocado — como se alguém tivesse movido os móveis dois centímetros para a esquerda. Nada gritante. Mas suficiente para eu caminhar com outro cuidado.

O ruído ainda existe.

Às vezes volta quando estou distraída, quando penso ter me estabilizado. Ele me lembra que sou estrutura provisória. Que há obras acontecendo onde ninguém enxerga.

E que talvez eu não seja casa.

Talvez eu seja canteiro.

 

Silvia Marchiori Buss

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