Todas as Mulheres Dentro de Mim

Há dias em que ela se percebe cheia.

Não cheia de tarefas, nem de pensamentos — cheia de mulheres.

Algumas aparecem de repente, sem aviso. Outras caminham com ela há tanto tempo que já se confundem com o próprio jeito de andar.

De manhã, por exemplo, quando prende o cabelo ainda úmido e olha a cidade pela janela, surge a menina que um dia acordava cedo só para ver o mundo começar. Aquela que acreditava que cada dia escondia alguma coisa inédita. A menina ainda mora ali, curiosa, perguntando silenciosamente o que o dia pretende fazer com elas.

Mais tarde, quando atravessa a rua distraída, aparece a jovem que caminhava sem medir as consequências. A que achava que tudo era possível, inclusive os amores que não duravam. Essa jovem ainda ri dentro dela — um riso meio ousado, meio ingênuo.

Às vezes surge também a mulher que aprendeu a ficar em silêncio.

Ela aparece quando a casa está calma demais ou quando alguém fala algo que não precisa de resposta. Essa mulher não tem pressa. Observa. Entende. Guarda.

Existe também a mulher que já chorou em lugares improváveis: dentro de um ônibus, no banheiro de um restaurante, no meio de uma tarde comum. Mas curiosamente, quando aparece agora, ela não traz lágrimas. Traz apenas uma certa delicadeza no olhar — como quem conhece as rachaduras da vida e já não se espanta com elas.

Há ainda a mulher que ama coisas pequenas.

Ela se manifesta quando o café fica exatamente no ponto, quando o vento levanta a cortina ou quando uma música antiga atravessa a sala . Essa mulher é quase invisível, mas talvez seja a que sustenta todas as outras.

Em certos momentos, surge a mulher que já se perdeu.

Ela aparece quando algo inesperado acontece: um reencontro, uma lembrança, um cheiro esquecido. Essa mulher não tem respostas — e curiosamente também não parece mais precisar delas.

E há uma outra, que ninguém vê.

Nem ela mesma.

Talvez seja a mulher que ainda está se formando, em silêncio, no fundo de todos os dias que ainda virão. Não se sabe bem quem ela será. Às vezes apenas se percebe um movimento — uma ideia nova, um desejo que muda de direção, uma coragem que aparece de forma discreta.

No fim das contas, ela aprendeu algo simples:

não existe apenas uma mulher vivendo dentro dela.

Existe uma multidão.

Algumas vieram da infância, outras dos amores, outras das perdas, outras simplesmente nasceram enquanto ela atravessava os anos sem perceber.

Nenhuma foi embora completamente.

Todas continuam ali, conversando em silêncio, caminhando juntas dentro do mesmo corpo, ocupando o mesmo coração.

E às vezes, quando a noite chega e a casa finalmente se aquieta, ela tem a nítida sensação de que não está sozinha.

Não é solidão.

É apenas a presença de todas as mulheres que ela já foi —
e de algumas que ainda estão chegando.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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