" O Imperativo Espiritual do Desejo"
Durante muito tempo ela acreditou que o desejo era apenas uma forma de querer alguma coisa.
Querer um vestido novo, querer viajar, querer que o dia fosse mais leve que o
anterior.
Depois
entendeu que não.
O
desejo verdadeiro não tem nada a ver com essas pequenas vontades que passam
como vento em cortina aberta.
O desejo verdadeiro permanece.
Silencioso, teimoso, quase invisível — mas permanece.
Foi
numa manhã sem importância que ela percebeu isso.
A
casa estava quieta demais.
Não havia nada urgente para fazer, nenhum compromisso marcado, nenhuma visita
esperada. A chaleira fervia devagar no fogão, espalhando aquele vapor fino que
parecia subir sem pressa para o teto.
Ela
sentou-se à mesa e ficou olhando a xícara vazia.
Havia
dias assim.
Dias em que a vida parecia suspensa, como um trem parado entre duas estações.
Nesses
dias ela se perguntava para que continuar fazendo tantas coisas.
Arrumar a casa, dobrar roupas, caminhar pelas mesmas ruas, dizer bom dia às
mesmas pessoas. Tudo parecia repetido demais, gasto demais.
Mas
então acontecia algo estranho.
Mesmo
quando o cansaço era grande, mesmo quando o coração parecia carregado de
ausências, alguma coisa dentro dela se recusava a parar.
Não
era esperança.
Esperança costuma ser luminosa demais.
Aquilo
era outra coisa.
Era
uma pequena força silenciosa que dizia apenas: continue.
Continue
abrindo a janela.
Continue colocando água para o café.
Continue olhando o céu, mesmo que o céu não responda.
Ela
percebeu que aquilo não vinha da razão.
Não era um pensamento organizado.
Era
quase uma ordem interior.
Uma
ordem delicada, mas firme.
Como
se alguma parte profunda da existência dissesse:
— viva.
Não
viva no sentido grandioso que os livros às vezes prometem.
Nada de destinos extraordinários, nada de grandes revelações.
Viva
no sentido mais simples.
Respire.
Observe.
Sinta.
Mesmo
que o mundo esteja cheio de perdas, mesmo que algumas perguntas jamais
encontrem resposta, ainda assim existe essa força quieta empurrando a vida para
frente.
Ela
entendeu então que o desejo não é apenas querer.
O
desejo é aquilo que insiste.
Aquilo
que continua existindo mesmo depois que quase tudo parece ter perdido o
sentido.
É
uma espécie de chamado interior — um imperativo silencioso da alma.
Não
pede explicação.
Não exige promessa de felicidade.
Apenas
diz:
continue
vivendo.
E
naquela manhã comum, enquanto o café finalmente esfriava na xícara, ela
percebeu que obedecer a esse chamado talvez fosse a única forma verdadeira de
espiritualidade que conhecia.
Silvia
Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário