Nossas Vidas

Há quem pense que a vida começa no grito.

Mas talvez ela comece na luz.

O amanhecer da vida é um quarto meio escuro, alguém abrindo a janela devagar, um choro que não sabe ainda o que significa. Não é sempre claro. Há amanhecer com sol filtrado pela cortina, cheiro de leite morno e colo. Mas há também amanhecer com temporal — incubadoras, sustos, mães exaustas, pais aprendendo a ter medo.

A primeira infância é essa claridade instável. A criança ri como se o mundo fosse uma promessa, mas também cai, rala o joelho, descobre que o não existe. O céu pode estar azul e, de repente, trovejar. Ainda assim, ela insiste. Anda cambaleando. Aprende a falar. Aprende que a ausência dói e que o abraço resolve quase tudo.

Depois vem o entardecer — que é a juventude e também a fase adulta. É quando o sol não está mais nascendo, mas ainda está alto o suficiente para nos fazer acreditar que temos tempo.

A juventude tem a luz dourada dos planos. Amores que parecem definitivos. Revoltas que parecem urgentes. O mundo cabe nas mãos abertas. Só que nem todo entardecer é feito de cor laranja e fotografia bonita. Há notícias que atravessam como vento frio. Há frustrações que chegam antes do previsto. Descobrimos que nem todo sonho quer ficar.

A fase adulta é esse sol começando a baixar. Trabalho, filhos, contas, responsabilidades que não pedem licença. Há dias de céu limpo — conquistas silenciosas, risadas à mesa, a sensação rara de estar no lugar certo. Mas também há perdas. Pais que adoecem. Amigos que partem. Projetos que não vingam. O entardecer ensina que a luz não é eterna, mas também que ela pode ser suficiente.

E então o anoitecer.

Não é apagão. É outra forma de enxergar.

No anoitecer da vida, a gente já passou por tempestades suficientes para reconhecer o barulho do trovão antes que ele estoure. Já viu nascer, crescer e se despedir. Já amou e já perdeu. Já perdeu e continuou. Há uma espécie de silêncio que não é vazio, é compreensão.

O corpo pode não obedecer como antes. A pressa perde o sentido. Algumas cadeiras ficam vazias à mesa. Mas há também uma lucidez nova: sabemos que nem todo amanhecer tem sol, que o entardecer pode trazer notícias difíceis, e que a noite não é inimiga — é repouso.

Nenhuma dessas horas do dia é melhor que a outra.

O amanhecer tem a coragem de começar sem saber.
O entardecer tem a ousadia de tentar apesar de saber.
O anoitecer tem a dignidade de permanecer depois de ter vivido.

Há dias em que a infância foi chuva, a juventude foi vento, a maturidade foi pedra. Ainda assim, cada fase guardou um ponto bom — às vezes pequeno como uma fresta de luz na porta entreaberta.

Nossas vidas, talvez seja atravessar os horários da própria existência sem desejar morar apenas num deles.

Porque a noite carrega as memórias do sol.
E o sol, quando volta, nunca é exatamente o mesmo.

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Silvia Marchiori Buss

 

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