Juntando os Pedaços
Ela chegou aos sessenta e cinco anos sem perceber exatamente quando a vida tinha passado da pressa para o silêncio.
Não
foi num aniversário específico.
Não houve trombetas, nem conclusões definitivas.
Apenas
um dia em que, ao dobrar uma roupa já limpa, percebeu que havia vivido muitas
vidas dentro de uma só.
Algumas
ficaram inteiras.
Outras, espalhadas.
Durante
anos ela acreditou que a vida era uma linha contínua. Nascer, crescer, amar,
perder, seguir.
Mas aos sessenta e cinco entendeu outra coisa:
A
vida era mais parecida com uma mesa depois de uma longa viagem — cheia de
objetos esquecidos.
Havia
ali a menina que corria descalça pela infância, convencida de que o mundo era
grande demais para caber dentro de uma casa.
Havia a jovem que acreditava que o amor resolvia tudo.
Havia a mulher que trabalhou, cuidou, lutou, segurou muitas pontas ao mesmo
tempo.
E
havia também as perdas.
Algumas
chegaram devagar.
Outras atravessaram a vida como um vento que abre todas as janelas ao mesmo
tempo.
Por
muito tempo ela pensou que perder era o fim de alguma coisa.
Mas
aos sessenta e cinco anos descobriu algo mais delicado.
Perder
espalha.
Espalha
pedaços da gente pelo caminho.
Um
pedaço ficou na mulher que ela foi quando acreditava que tudo seria para
sempre.
Outro ficou na mãe que aprendeu a ser forte mesmo quando não queria.
Outro ficou na esposa que dividiu décadas de silêncio, risadas, pequenas
rotinas.
E
havia ainda pedaços guardados em lugares inesperados:
em uma música antiga,
numa rua que ela não passava há anos,
numa carta esquecida dentro de um livro.
Ela
começou então um trabalho silencioso.
Não
para voltar a ser quem era.
Mas
para recolher o que ainda lhe pertencia.
Não
foi um gesto dramático.
Não houve promessas de recomeço.
Foi
quase doméstico.
Como
quem varre o chão depois de uma festa longa.
Recolheu
a coragem que um dia teve e achou que havia perdido.
Recolheu a curiosidade da menina que perguntava demais.
Recolheu a mulher que ainda sabia olhar o mundo com espanto.
Alguns
pedaços voltaram com facilidade.
Outros
estavam mais distantes.
Havia
também os que nunca voltariam.
E
ela aprendeu, com uma serenidade que só os anos ensinam, que uma vida
reconstruída nunca fica igual à original.
Fica
outra coisa.
Mais
silenciosa.
Mais inteira por dentro.
Aos
sessenta e cinco anos ela não estava começando de novo.
Estava
começando de si mesma.
Sem
pressa.
Sem plateia.
Sem precisar provar nada a ninguém.
Porque
havia compreendido uma verdade que ninguém conta quando somos jovens:
A
vida não termina quando algo se quebra.
Às
vezes é exatamente ali que começa o trabalho mais bonito.
O
de juntar, com cuidado, todos os pedaços espalhados de quem fomos —
e
descobrir que ainda somos capazes
de viver outra vez.
Silvia
Marchiori Buss
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