" E La Nave Va"
O mar estava quieto naquela manhã. Não quieto de ausência, mas quieto como quem pensa.
Do
cais, a nave parecia imensa. Não pelo tamanho — havia navios maiores —, mas
pela quantidade de histórias que parecia carregar. Havia algo na pintura
levemente descascada do casco, na corda grossa que ainda prendia o navio ao
porto, no modo como as janelas refletiam o céu, que dava a impressão de que
aquela nave já conhecia o mundo.
As
pessoas subiam a bordo com pressa.
Carregavam
malas, promessas, lembranças que não cabiam em lugar nenhum. Alguns falavam
alto, como se quisessem convencer o destino de que estavam prontos. Outros
caminhavam devagar, como quem atravessa uma despedida.
Entre
eles estava ela.
Não
trazia mala grande. Apenas uma bolsa de couro antigo e um silêncio dentro do
peito.
Parou
um instante antes de subir a prancha. Olhou o mar como quem consulta um velho
amigo. O horizonte estava distante e calmo, aquela linha onde o céu aprende a
tocar a água sem fazer barulho.
Subiu.
No
convés, o vento tinha cheiro de sal e tempo.
Havia
passageiros de todos os tipos. Um homem que ria alto demais, como se o riso
fosse uma boia. Uma mulher que segurava a mão da filha com força, como quem
amarra um barco pequeno ao cais do próprio coração. Um velho que parecia já ter
viajado muito e que olhava o mar como quem reconhece uma estrada antiga.
A
sirene soou baixa, profunda, como um coração grande acordando.
As
cordas foram soltas.
O
navio afastou-se do porto com a delicadeza de quem sabe que toda partida também
é uma ferida.
No
início quase não se percebe o movimento. A cidade ainda está perto, as casas
ainda têm janelas reconhecíveis, as pessoas no cais ainda são rostos e não
apenas pontos no ar.
Mas
aos poucos tudo se afasta.
As
ruas tornam-se linhas.
As vozes tornam-se vento.
O passado torna-se uma margem.
Ela
ficou encostada no parapeito, observando.
Pensou
que a vida se parece muito com uma nave dessas. Não pergunta se estamos prontos
para embarcar. Não explica o destino com clareza. Apenas solta as cordas em
algum momento e começa a seguir.
Alguns
passam a viagem inteira olhando para trás, tentando distinguir o porto que
ficou. Outros caminham pelos corredores, abrindo portas, descobrindo salões
inesperados.
Há
também os que ficam no convés.
Gente
que aprendeu que o melhor lugar da viagem é onde o vento toca o rosto e o
horizonte permanece aberto.
Ela
era dessas.
O
mar começou a mudar de cor conforme o dia avançava. Primeiro azul claro, depois
um azul mais profundo, quase pensativo. Gaivotas ainda acompanhavam o navio,
como se escoltassem aquela travessia.
Mais
tarde desapareceriam.
Há
momentos em que até as aves sabem que precisamos continuar sozinhos.
O
velho que parecia conhecer o mar aproximou-se e ficou ao lado dela. Não disse
nada por um tempo. Apenas observou a água abrindo-se em espuma branca ao redor
do casco.
Depois
falou, como quem conta um segredo antigo:
—
No começo a gente acha que o importante é o destino.
Ela
continuou olhando o horizonte.
—
E não é? — perguntou.
O
velho sorriu devagar.
—
Não. O importante é que a nave continua.
Ela
entendeu.
Algumas
perdas ficam para trás como portos que não voltaremos a ver. Algumas pessoas
descem em lugares que não sabemos localizar no mapa. Algumas alegrias duram
apenas o tempo de uma paisagem.
Mas
o navio segue.
O
sol começou a descer no céu, espalhando sobre o mar um caminho dourado que
parecia feito de lembranças.
A
nave avançava com paciência.
E
naquele movimento constante, quase silencioso, havia uma espécie de sabedoria
que o mundo raramente explica, mas que o mar conhece desde sempre.
Sem
pressa.
Sem garantias.
Sem retorno.
E la nave va.
Silvia Marchiori Buss
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