Do Outro Lado da Própria Vida

Quando Marina começou a atravessar a rua mais devagar, ninguém percebeu.

Ela também não percebeu de imediato.

Não era medo dos carros. Era outra coisa. Uma espécie de desaceleração interna, como se os passos precisassem acompanhar algo que dentro dela tinha mudado de ritmo.

A cidade seguia igual. O jornaleiro levantava a porta de metal às sete. A farmácia mantinha a luz branca acesa a qualquer hora. O cheiro de pão quente escapava da padaria da esquina. Tudo no lugar.

Só Marina parecia ligeiramente deslocada — como um móvel que foi arrastado alguns centímetros durante a noite e, pela manhã, ninguém sabe explicar por que o espaço parece diferente.

No armário, vestidos que ainda serviam, mas já não diziam.
Na gaveta, cartas dobradas com uma letra firme demais para o que ela agora sentia.
No espelho, um rosto conhecido, mas com um silêncio novo nos olhos.

Não era tristeza aguda. Não era alegria. Era um intervalo.

Durante anos, Marina viveu no lado que resolve, que responde, que não falha. O lado das listas, das datas, das decisões rápidas. O lado que sustenta a casa quando ela ameaça ruir por dentro.

Houve amor. Houve risos largos na cozinha. Houve planos pronunciados em voz alta, como se o futuro obedecesse. E houve o depois — sempre há um depois — que não chegou fazendo barulho, apenas ocupando espaço.

A casa, com o tempo, ficou grande demais para duas xícaras na pia e pequena demais para o que já tinha sido.

Certa tarde, Marina sentou-se na sala sem acender a luz. O sol entrava de lado, levantando pequenas partículas de poeira no ar. Ficou ali como quem espera um trem que talvez já tenha passado — mas ainda escuta o eco nos trilhos.

Não pensava exatamente. Recordava sem organizar.

Percebeu, então, que havia vivido muito tempo de um lado só da própria vida. O lado que exige firmeza. O lado que não permite pausa. O lado que continua mesmo quando alguma coisa cede por dentro.

Mas existia outro lado.

Mais demorado.
Menos urgente.
Quase imperceptível.

No dia seguinte, abriu as janelas cedo. Não para arejar a casa — apenas para ouvir. A rua tinha um som que ela nunca notara: passos dispersos, um portão batendo ao longe, um cachorro que latia como se chamasse alguém que não vinha.

Fez café sem olhar o relógio. Sentou-se à mesa e deixou a xícara aquecer as mãos por tempo suficiente para não precisar de mais nada.

Não decidiu nada. Não prometeu nada a si mesma.

Apenas caminhou sem destino exato naquela manhã. Reparou nas rachaduras dos prédios antigos, nas plantas que insistiam em nascer entre as pedras da calçada. Havia algo de honesto nas coisas que continuam existindo sem espetáculo.

À noite, deixou a luz da cozinha acesa — por descuido ou intenção, não saberia dizer. A casa ficou com aquele brilho morno que não ilumina tudo, apenas o suficiente.

Sentou-se outra vez perto da janela. A rua estava quase vazia. Um ônibus passou levando poucas pessoas, cada uma recolhida no próprio silêncio. O vidro refletia seu rosto misturado ao escuro da noite. Por um instante, não soube se olhava para fora ou para dentro.

Ficou ali.

Sem pressa de atravessar.
Sem pressa de voltar.

Do outro lado da própria vida não havia anúncio, nem promessa. Havia apenas a respiração regular da cidade, a xícara esquecida sobre a mesa, o leve ranger da madeira antiga quando o vento encostava na porta.

Marina não fez planos.

Apenas permaneceu sentada, enquanto a noite avançava devagar — como quem aprende que algumas travessias não se fazem andando.

E, lá fora, a rua seguiu.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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