Lausanne, Mon Amour
Viver em Lausanne é, ao mesmo tempo, uma aula de disciplina suíça e uma provocação constante aos sentidos. A cidade parece ter sido desenhada por um arquiteto que andava apaixonado: ruas que sobem e descem como se fossem curvas de um corpo, becos estreitos que se insinuam como segredos sussurrados, e o Lago Léman, sempre deitado ali, com aquela calma lasciva de quem sabe que está sendo olhado.
Aqui, até o relógio é
sedutor: marca sete horas da noite e, em vez de estresse, o comércio fecha em
uníssono, como se a cidade inteira resolvesse se despir do expediente e se
vestir para os prazeres da vida. Lausanne não se esgota em compromissos, ela convida
— um vinho no terraço, um beijo roubado nas escadas da catedral, um passeio à
beira do lago em que até as ondas parecem flertar com quem passa.
E, convenhamos, há algo
inegavelmente sexy em viver num lugar onde os trens chegam na hora certa, as
pessoas falam baixo e até os escândalos parecem acontecer em voz de veludo.
Lausanne não grita: sussurra. E, nesse sussurro, quem mora aqui acaba se descobrindo
mais atrevido do que imaginava.
É que a ordem suíça abre
espaço para pequenas desordens íntimas: dançar sozinha no Flon sem ligar para
quem olha, deixar o casaco cair “por acaso” numa tarde de primavera, ou
simplesmente se dar o luxo de atravessar a cidade de salto alto, mesmo que o caminho
seja só até a padaria.
No fundo, viver em Lausanne
é isso: uma mistura entre precisão suíça e malícia francesa. Entre a
pontualidade do relógio e o atraso deliberado do desejo.
E eu confesso: poucas
cidades me deixaram tão tentada a perder a hora.
Silvia Marchiori Buss
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