A Mulher do Turbante
O ônibus avançava lentamente pela avenida, com seus solavancos habituais, como se carregasse não apenas pessoas, mas também o peso de suas histórias. Sentada perto da janela, uma mulher observava a cidade passar em pedaços: uma vitrine iluminada, uma criança correndo com a mochila maior que o corpo, um homem distraído que parecia conversar com as próprias sombras. Mas foi outra mulher que capturou sua atenção.
Estava a três bancos à
frente, imóvel como uma escultura. Usava um turbante azul, tecido que se erguia
em voltas perfeitas, como se guardasse dentro dele segredos e continentes
inteiros. Havia algo de majestoso naquele adorno, não pela ostentação, mas pela
dignidade silenciosa que imprimia ao rosto da passageira.
A observadora pensou se o
turbante era um gesto de fé, de identidade, ou apenas de beleza. Talvez fosse
uma lembrança de um país distante, talvez apenas a maneira de domar os fios
rebeldes. Mas havia algo naquele azul que lembrava mares — os de fora e os de
dentro.
O rosto da mulher do
turbante não sorria nem entristecia: era um rosto quieto, de quem já atravessou
desertos e, mesmo cansada, segue adiante. Os olhos, firmes, miravam o nada — ou
tudo.
Quando o ônibus parou, a
mulher do turbante levantou-se. Desceu com a calma de quem não deve explicações
ao tempo. A observadora virou-se discretamente para trás, os olhos fixos nela
até a curva da esquina, quando seus fios já não alcançaram mais o azul do
turbante que se dissolveu na cidade.
Silvia Marchiori Buss
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