A Casa Ainda Te Espera

A noite tinha cheiro de terra molhada e promessa não cumprida. A chuva escorria pelas calhas como se também tivesse algo a dizer. Ela não dormia — há dias, talvez meses, o sono só vinha em fragmentos, como tudo o que restara dela desde a última vez que ele partira sem dizer quando voltava. Ou se voltava.

A casa respirava com dificuldade, como se seus cômodos soubessem da ausência. As cortinas paradas, o sofá intacto, os livros fechados. Tudo aguardava. Tudo nela — e ao redor dela — estava à espera de um ruído, um tropeço, um arrependimento.

Foi então que ouviu: passos. Um rangido na madeira da varanda. E o som mais íntimo do mundo — a maçaneta girando devagar.

Ele voltou numa noite molhada de chuva, encharcado de passado, com os cabelos grudados na testa e os olhos escuros de silêncio. Não havia mala, nem flores. Só ele, e a tempestade ainda grudada na pele.

Ela o olhou da porta do corredor. A cara mostrava que chorou a noite inteira — e talvez as anteriores também. Mas agora não era hora de mostrar fraqueza. Era hora de ouvir o que ele não dizia.

Ele tentou sorrir, mas o sorriso afundou no cansaço.

— Tá chovendo muito — disse, como se isso justificasse a volta.

Ela não respondeu. Apenas deu dois passos pra dentro da sala, acendeu o abajur e sussurrou, com uma firmeza cheia de ternura:

— Volte… que deixei a porta entreaberta pra você. Só não sei se ela ainda abre pra mesma história.

Ele entrou. Devagar, como se pisasse nas próprias falhas. Olhou em volta. Os quadros estavam no mesmo lugar. A poltrona ainda tinha a almofada que ele odiava. Mas havia algo diferente: a casa parecia menor. Ou ele é que estava mais encolhido?

— Você ainda me espera? — ele perguntou, tirando o casaco encharcado.

Ela passou por ele com uma toalha, secando-lhe os ombros com delicadeza, como quem ainda ama, mas com as mãos frias de quem já aprendeu a sobreviver.

— A casa se encheu de saúde com você aqui. Mas também conheceu a febre.

Ele sentou-se. Ela serviu o café. Era o mesmo ritual de sempre, mas algo estava fora de eixo. Talvez fosse o tempo. Ou o tanto de silêncios acumulados entre uma partida e outra.

— Você quer que eu fique? — ele arriscou, com voz baixa.

— Eu queria que você soubesse ficar — ela respondeu.

O barulho da chuva lá fora parecia um coro de lembranças. E o relógio, impiedoso, seguia marcando o que eles haviam deixado passar.

Ele tentou dizer mais alguma coisa, mas ela se antecipou, com os olhos firmes e cansados:

— Algumas pessoas a gente ama pra sempre... mas aprende a esperar cada vez menos.

Ele baixou o olhar. E ela, pela primeira vez, sentiu-se inteira. Não porque ele voltou. Mas porque agora, finalmente, sabia onde terminava o amor e começava o amor-próprio.

Naquela noite molhada de chuva, ele ficou. Ou fingiu que ficaria. Ela, desta vez, não fingiu nada.

A porta, entreaberta, já não era convite. Era apenas lembrança de quem, um dia, ainda acreditou em recomeços.

 



Silvia Marchiori Buss

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