Vidas Que Habitam Em Mim...
Ela nunca soube ao certo quantas vidas carregava dentro de si.
Sabia,
no entanto, que não era feita de uma só.
Havia
nela uma menina que ainda esperava pelo pai na esquina da rua, mesmo sabendo —
agora com a dor da idade — que ele nunca mais voltaria. Essa menina, de olhos
inquietos, às vezes acordava no meio da noite e a fazia chorar sem motivo. Era
ela quem ria mais alto e também quem mais doía.
Havia
também uma mulher que amava demais. Que acreditava em cartas escritas à mão, em
promessas sussurradas no escuro, em silêncios que não precisavam de tradução.
Essa mulher havia sido deixada mais de uma vez. Mas nunca deixara ninguém.
Mesmo quando partiu, foi ficando nos detalhes: no bilhete colado à porta, no
café passado na hora errada, no perfume esquecido na toalha.
E
havia uma outra — que não partiu, mas ficou. Ficou, porque o amor partiu antes.
Essa
era a mulher que perdera o grande amor de sua vida.
Não
foi embora por escolha ou cansaço, nem por desentendimento. Ele simplesmente
adormeceu numa tarde azul e nunca mais acordou. Ela segurava a mão dele quando
a pele começou a esfriar, e não havia nada naquele gesto que preparasse alguém
para o depois.
Essa
mulher — que ela mesma era — passou a viver com uma ausência que preenchia
tudo. A cama, o cheiro da casa, a colher do café. Às vezes, pensava ouvi-lo
cantarolando no banheiro. Outras, conversava com ele baixinho enquanto lavava
os pratos. E havia dias, mais frequentes do que gostaria de admitir, em que
esquecia que ele se fora, e só depois lembrava — como quem pisa no vazio
achando que ainda há chão.
Essa
mulher do luto era feita de silêncios espessos. Guardava cartas que nunca
escreveu e planos que morreram com ele. Ela habitava os domingos com cautela,
como quem pisa em terreno minado, e esperava o tempo não curar, mas ao menos
ensinar a conviver com a ferida.
As
outras versões de si tentavam confortá-la, cada uma à sua maneira. A menina
chorava com ela. A mulher que amava demais trazia lembranças. A cansada a fazia
dormir.
E
todas, juntas, a mantinham de pé.
Ela
aprendeu a conviver com esse condomínio de almas que moravam em seus ossos. Em
dias bons, escutava a menina cantarolar uma antiga cantiga, a mulher acender
uma vela na janela, e a do luto permitir-se sorrir por um instante, ao lembrar
de um gesto bobo dele — a forma como ele dobrava o guardanapo, ou o jeito
distraído de coçar o queixo.
Em
dias ruins, não saía da cama.
E
não era preguiça. Era excesso de presenças. De vozes antigas dizendo o que
devia ter sido. De saudades que não pediram licença. De promessas que ainda
ecoavam, embora não houvesse mais ninguém para cumpri-las.
Ela
sabia que era feita de muitas vidas — e nenhuma delas estava inteiramente certa
ou errada. Todas a moldaram, todas a feriram e, em certa medida, todas a
salvaram.
Por
isso, quando lhe perguntavam como se sentia, ela hesitava. Porque não sabia
qual delas estava respondendo. Talvez fosse a menina esperando o pai. Talvez a
mulher que amava demais. Talvez a viúva que ainda ouvia os passos dele pela
casa.
Mas
às vezes — só às vezes — todas elas se calavam. E, por um instante breve como o
voo de uma andorinha, ela sentia paz.
Era
nessa fresta de silêncio que ela lembrava: ainda habitava em si mesma.
E
isso, por mais estranho que fosse, ainda era uma forma de amor.
Silvia Marchiori Buss
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