O Voo Deve Continuar

Ela não lembrava mais quando as asas começaram a pesar. Talvez tenha sido numa tarde comum, dessas em que a gente dobra uma roupa qualquer e pensa que a vida está toda ali — no tecido passado, no cheiro de lavanda que engana o vazio. Ou talvez tenha sido antes, muito antes, quando calou um desejo pela primeira vez para não desagradar ninguém. O certo é que, de repente, voar já não era tão simples.

Tinha dias em que a vontade de pousar era tão grande que ela se sentava no chão da cozinha e ali ficava, tentando lembrar por que começou a voar. A infância parecia uma estação distante. Os sonhos, passageiros que desceram cedo demais. Mas ainda havia o céu, mesmo cinza, e uma força branda — quase teimosa — que a impelia a continuar.

Os outros a viam andando pela rua, indo ao mercado, pagando contas. Ninguém notava que, por dentro, ela sustentava um voo discreto. Não desses que ganham manchete, mas o tipo de voo que não faz barulho. Um voo de resistência.

Ela já não esperava aplausos nem testemunhas. Aprendeu que certos voos são para dentro, e que seguir não é, necessariamente, se afastar — às vezes, é apenas não parar. Não se trata de chegar a algum lugar, mas de não se abandonar no meio do caminho.

Tinha o corpo cansado, os olhos um pouco gastos, mas a alma... a alma ainda batia as asas. E era isso que ninguém via: a coragem miúda com que ela enfrentava os dias. A cada manhã, fazia café, abria a janela, olhava para o alto. O céu não precisava ser limpo — bastava estar lá.

E então, mesmo que em silêncio, ela repetia para si:

— O voo deve continuar.

Não porque o mundo exige, não porque a vida obriga. Mas porque parar seria o mesmo que apagar-se. E ela, ainda que exausta, ainda que remendada por dentro, insistia em viver. Mesmo sem espetáculo. Mesmo sem plateia.

Apenas viver. E voar. Como pode. Como dá. Como é.

Silvia Marchiori Buss

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