Às Raias do Absurdo

A fé é uma espécie de salto – mas não um salto cego. É antes um gesto de coragem desesperada, como quem pisa no vazio acreditando que ali, onde não se vê nada, há algo capaz de sustentar. Muitos dizem que é esperança. Mas há um momento em que a esperança, já sem lógica, sem garantias, sem chão, se transforma em fé – e é aí que mora o seu poder.

Porque a fé começa onde termina o razoável.

É acreditar na cura quando o diagnóstico é sentença. É seguir amando quando tudo em volta sugere abandono. É colocar flores na janela de uma casa em ruínas. É conversar com o silêncio e esperar uma resposta. É erguer um berço mesmo antes do ventre gerar vida. É muitas vezes, parecer ridículo aos olhos de quem só reconhece o que pode tocar, medir ou provar.

Fé é persistir mesmo sem promessas. É não saber o final da história, mas seguir virando as páginas. É insistir em recomeços, em dias melhores, mesmo depois de tantas madrugadas frias. É confiar em alguém, e, algo, em si – mesmo quando tudo parece gritar o contrário.

Por isso, ela é chamada de absurda.

Porque exige que o coração permaneça aberto mesmo depois de quebrado. Porque pede que se acredite sem ver. Porque sustenta a alma com um fio invisível, como se o invisível fosse mais real que o concreto. E, para quem não compreende, isso soa como loucura. Mas talvez seja mesmo. Uma loucura sagrada, uma lucidez que não explica.

A fé é esse incêndio silencioso que se recusa a apagar, mesmo debaixo de chuva. Um farol aceso numa ilha que ninguém mais visita. Uma prece sussurrada ao vento. Uma criança que dorme em paz, confiando que o mundo a guardará.

É a esperança ...levada às últimas consequências.

Silvia Marchiori Buss

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