Por que Não!

Viviane sai do banheiro e enrola-se no robe que, desde sempre, está pendurado atrás da porta, junto ao do marido, que permanece intacto pela falta de uso. Ela se envolve bem no tecido e dirige-se ao quarto do casal.

A mulher olha para Beto, que dorme profundamente, com direito a ronco e tudo mais, apesar da luz intensa de um belo domingo de primavera.

Viviane sacode a cabeça, como em um lamento, enquanto balbucia:
— Quem te viu, quem te vê... hein, Beto.

Beto fora um rapaz muito simpático, o mais cobiçado da pequena cidade, mas acabou “fisgado” por Viviane, uma morena de olhos castanhos que, nos tempos idos, já se sentira bela.

Viviane abre o robe diante do espelho, examina seu corpo, que há muito tempo deixara de ser “seu corpo”. Recorda-se das curvas generosas, dos seios fartos e empinados, das coxas fortes e firmes. Olha novamente para a cama, onde o marido continua dormindo, e então se enrola novamente no robe, tentando esconder-se de si mesma. Deita-se na cama.

Beto acorda, esfrega rudemente as mãos no rosto, tentando despertar-se, enquanto resmunga:
— Por que não está pronta? Afinal, tu não me encheste o saco para sair? Agora vamos!

— Não! responde Viviane.

— Mas por quê...?

— Por que não!

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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