Da minha janela
Da janela, ela vê a vida desdobrar-se como uma peça silenciosa, cheia de atos inesperados e atores desconhecidos. A mulher de meia-idade, solitária e com um passado marcado por perdas irreparáveis, observa o mundo com um olhar atento e melancólico. A guerra não só lhe levou a família como também roubou sua infância, deixando-a, ainda criança, sozinha, sem qualquer ponto de apoio. Com apenas sete anos, a pequena viu-se deslocada, órfã, entregue a um mundo onde as cores rapidamente se tornaram cinza. Os bombardeios, as sirenes e o som do caos ainda ecoavam em sua memória, mesmo décadas depois.
Ao crescer, teve poucos amigos; o medo de perder as pessoas para o destino implacável a paralisava, fazendo com que se mantivesse à distância. Alguns amores tentaram bater à sua porta. Houve um rapaz que costumava esperá-la ao fim do expediente na fábrica, sempre com um sorriso sincero e palavras gentis. Ele a fazia rir de uma forma que ela quase esquecera ser possível. Mas o medo de um novo adeus a fazia recuar, desistindo de avançar, formar uma família e ser feliz. A guerra lhe deixara sem raízes, sem laços, como uma árvore solitária em uma planície desolada.
A solidão a transformou nessa mulher da janela, alguém que via o mundo passar sem se permitir envolvimento ou emoção. Eram apenas rostos e cenas que não lhe diziam respeito. Mas, com o tempo, ela começou a perceber histórias nesses fragmentos de vida. Observava o casal jovem que sempre passava às sextas-feiras. Ele, com um sorriso despreocupado; ela, com olhos que brilhavam de afeto. Em outra esquina, uma senhora discutia em voz alta com o filho, com os gestos firmes de uma mãe preocupada, que mesclava broncas com conselhos mal disfarçados.
Nas madrugadas silenciosas, ela assistia ao desenrolar de um romance secreto: dois jovens que se encontravam furtivamente sob a luz fraca do poste da rua, trocando olhares e sussurros que pareciam ressoar mais alto na escuridão. Ela os acompanhava noite após noite, sentindo-se cúmplice daquele amor que crescia no silêncio e na sombra.
Entre os sorrisos e choros que escutava à distância, ela passou a dar vida aos personagens que cruzavam sua janela. Imaginava os sonhos e as dores de cada um. O entregador de flores, que sorria para as moças nas janelas; o músico de rua, que tocava para ninguém em especial, mas que parecia derramar em cada nota suas angústias.
Cada cena observada era como um reflexo de suas próprias emoções, um eco dos sentimentos mais profundos. A mulher que, em um domingo à tarde, chorava ao telefone lembrava-lhe das lágrimas que já derramara em noites solitárias. E o garoto que corria com um cachorrinho pela calçada trazia de volta as memórias mais remotas de sua infância, quando o riso era um som familiar.
Assim, tornou-se espectadora da vida alheia, mas, ao mesmo tempo, permitiu-se sentir novamente. Os fragmentos de vida que observava ofereciam-lhe um consolo discreto, um retorno à humanidade. Entre amores secretos, brigas intensas, risadas despreocupadas e silêncios dolorosos, ela encontrou uma maneira de pertencer ao mundo, mesmo que à distância. Da sua janela, ela aprendeu a se refletir em cada história que passava, descobrindo que, mesmo na solidão, a vida continua em movimento – e ela também.
Ao crescer, teve poucos amigos; o medo de perder as pessoas para o destino implacável a paralisava, fazendo com que se mantivesse à distância. Alguns amores tentaram bater à sua porta. Houve um rapaz que costumava esperá-la ao fim do expediente na fábrica, sempre com um sorriso sincero e palavras gentis. Ele a fazia rir de uma forma que ela quase esquecera ser possível. Mas o medo de um novo adeus a fazia recuar, desistindo de avançar, formar uma família e ser feliz. A guerra lhe deixara sem raízes, sem laços, como uma árvore solitária em uma planície desolada.
A solidão a transformou nessa mulher da janela, alguém que via o mundo passar sem se permitir envolvimento ou emoção. Eram apenas rostos e cenas que não lhe diziam respeito. Mas, com o tempo, ela começou a perceber histórias nesses fragmentos de vida. Observava o casal jovem que sempre passava às sextas-feiras. Ele, com um sorriso despreocupado; ela, com olhos que brilhavam de afeto. Em outra esquina, uma senhora discutia em voz alta com o filho, com os gestos firmes de uma mãe preocupada, que mesclava broncas com conselhos mal disfarçados.
Nas madrugadas silenciosas, ela assistia ao desenrolar de um romance secreto: dois jovens que se encontravam furtivamente sob a luz fraca do poste da rua, trocando olhares e sussurros que pareciam ressoar mais alto na escuridão. Ela os acompanhava noite após noite, sentindo-se cúmplice daquele amor que crescia no silêncio e na sombra.
Entre os sorrisos e choros que escutava à distância, ela passou a dar vida aos personagens que cruzavam sua janela. Imaginava os sonhos e as dores de cada um. O entregador de flores, que sorria para as moças nas janelas; o músico de rua, que tocava para ninguém em especial, mas que parecia derramar em cada nota suas angústias.
Cada cena observada era como um reflexo de suas próprias emoções, um eco dos sentimentos mais profundos. A mulher que, em um domingo à tarde, chorava ao telefone lembrava-lhe das lágrimas que já derramara em noites solitárias. E o garoto que corria com um cachorrinho pela calçada trazia de volta as memórias mais remotas de sua infância, quando o riso era um som familiar.
Assim, tornou-se espectadora da vida alheia, mas, ao mesmo tempo, permitiu-se sentir novamente. Os fragmentos de vida que observava ofereciam-lhe um consolo discreto, um retorno à humanidade. Entre amores secretos, brigas intensas, risadas despreocupadas e silêncios dolorosos, ela encontrou uma maneira de pertencer ao mundo, mesmo que à distância. Da sua janela, ela aprendeu a se refletir em cada história que passava, descobrindo que, mesmo na solidão, a vida continua em movimento – e ela também.

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