O filho do sapateiro

O cheirinho de comida caseira anuncia a hora de recolher; as crianças, já bastante esfomeadas e cansadas de tanto correrem pela rua arborizada e tranquila, apressam-se para o banho, pois sem ele nada de jantar. O sapateiro cerra a porta, vira a placa onde se lê "fechado", indicando que mais um dia se acabara. A sapataria ficava na parte da frente da casa de moradia, separada por um pequeno jardim interno, local onde a família se reúne após as refeições para saborear a tão esperada sobremesa. 

Jonas era, na verdade, arquiteto, mas devido à sua grande habilidade e gosto por sapatos, em suas horas vagas, confeccionava belos pares. Sua paixão por essa arte o fez abandonar a arquitetura e passar a dedicar-se somente à confecção de charmosos calçados. Seus fregueses eram da alta sociedade; várias esposas de generais, coronéis, médicos, advogados eram as mais assíduas freguesas.

O ano era de 64, anos difíceis, tempos em que o Brasil fervilhava devido à ditadura militar. Murilo, filho mais velho, costumava acompanhar o pai ao ateliê; passava horas admirando a habilidade e a delicadeza com que ele desenhava e recortava o couro macio. O cheiro do couro lhe fazia bem, dava ao menino de apenas oito anos uma sensação de proteção, de presença paterna.

O rádio era o companheiro da dupla, que conversava sem parar; o menino sempre indagando do pai dúvidas e curiosidades, característica de sua idade. Volta e meia, Jonas colocava o dedo indicador na própria boca pedindo silêncio ao filho e aguçava o ouvido para a notícia do rádio.

Em um pequenino quarto da sapataria, havia um rádio amador, no qual o pai de Murilo, o sapateiro, passava algum tempo conversando e anotando coisas, sempre em códigos. O menino não entendia, curioso, perguntava ao pai, mas recebia como resposta que era assunto de gente grande, mais tarde ele tomaria conhecimento. Murilo se conformava e, a pedido do pai, mantinha segredo absoluto sobre tal rádio. Cumplicidade entre pai e filho; isso aproximava cada vez mais o menino de seu pai, que prometera contar-lhe tudo no momento certo.

Na noite de 6 de agosto de 1964, o pequeno jardim, refúgio da família, foi invadido por um grupo de homens fortemente armados. Sem muita demora, carregam o sapateiro para dentro de um carro preto, sem placas. A família fica em choque. A mulher, jovem e muito graciosa, que auxiliava o marido no desenho dos sapatos, como se soubesse o que estava ocorrendo, abraça os meninos, no ímpeto de protegê-los. Os três “despedem-se” do sapateiro, somente com um olhar triste e profundo.

Nessa noite não saborearam a torta de chocolate coberta com coco, o cheiro do café que acompanharia a guloseima envolvia todo o ambiente, mas também ficou esquecido sobre a mesa da sala. Essa é a lembrança que o filho do sapateiro insiste em não esquecer. A sapataria foi fechada, dessa vez não abriria mais no dia seguinte; alguns “amigos” de Jonas recolheram a máquina de falar, o que o pai chamava de rádio amador.

A família passa por momentos de desespero, medo, mas a esperança de que o pai voltasse permanecia acesa nos três corações. O menino não conseguia entender por que haviam levado seu pai; um homem trabalhador, carinhoso, um verdadeiro artista de sapatos. Murilo, a mãe e a irmã mais nova mudam de residência; deixam para trás aquele verdadeiro “oásis” no meio da selva de pedras. Nunca mais sentiu o cheiro do couro; o sabor do bolo de chocolate com cobertura de coco nunca mais foi o mesmo.

O tempo insiste em avançar rapidamente, levando junto a esperança de ainda ver o pai; a pressa do tempo vai afastando dele as recordações, que vão se misturando com outras, tentando fazê-lo esquecer por completo detalhes que não poderia perder. O acontecimento vai se parecendo como se fosse um filme que ele havia assistido na TV.

Ano novo, vida nova. Murilo, sua mãe e a irmã, agora grávida de um menino, estouram uma champanhe festejando o ano de 84 que está para nascer. Aos vinte e oito anos de idade, Murilo é um jornalista reconhecido, um jovem que, junto com muitos outros, festejou o fim da ditadura militar, foi mais um dos que lutou pelas diretas, pela democracia, pelo povo. O Brasil teria outra cara, a cara do povo brasileiro.

Não levou muito tempo para que Murilo entendesse o que se passou com seu pai, no longínquo ano de 64; aquelas palavras que o sapateiro lhe dizia: “calma, mais tarde, esse assunto não é para criança, tudo tem seu tempo”. O tempo era agora. Então o jovem jornalista fazia o que devia; escrevia sobre política em um jornal de porte médio da capital de São Paulo.

A esperança de que seu pai iria, algum dia, ler uma de suas crônicas ficou para trás; agora só lhe interessava passar a limpo o passado, ajudando muitas outras famílias que foram destruídas devido a seus ideais, na época, proibidos. Valéria, noiva de Murilo, também jornalista, compartilha com o colega a necessidade de dar ao povo brasileiro a real democracia. A bela jornalista entende todo o drama que o noivo passou e que ainda sofre com as sequelas daqueles tempos. É carinhosa e muito meiga, espera ajudá-lo a manter amena a dor da ausência do pai, que o acompanha durante toda sua vida.

Valéria especializou-se em jornalismo culinário, por isso frequenta muitos restaurantes, na maioria das vezes em companhia do noivo. Fora criada em São Paulo, mas mudou-se muito cedo para o sul do Brasil, devido à profissão do pai, militar do exército. Ambos muito apaixonados, vivem num agradável apartamento nos Jardins, pretendem algum dia casar-se, formar uma família.

A distância e as atividades dificultam os encontros entre as famílias; poucas vezes Murilo encontrou-se com o futuro sogro, que mesmo assim aprova o casamento com sua única filha. O general, hoje na reserva, sofre de um tipo de reumatismo, que o faz sentir fortes dores; vive à base de calmantes. Sua dor maior era de consciência, pois sua atuação na década de sessenta o atormenta dia e noite. Hoje vive só em uma grande mansão numa bela praia. Ocasionalmente é visitado por sua filha, que sempre teve certa reserva afetiva com o pai. A morte da mãe os distanciou ainda mais.

Murilo recebe das mãos do porteiro um envelope, subscrito à mão. Sem muita curiosidade pelo conteúdo do envelope, sobe ao apartamento; prepara um aperitivo. Hoje estaria só, pois Valéria encontra-se em Salvador cobrindo uma matéria; a abertura de um fino restaurante estrangeiro. Após o banho, telefona para sua amada, conversam coisas íntimas e sensuais, despedem-se com beijos de boa noite, logo cedo estariam juntos.

O envelope amarelo é aberto, sem muita expectativa. O estampido do copo se quebrando no piso da sala de jantar o faz voltar décadas atrás, consegue até sentir o cheiro do couro, do café e o sabor do bolo de chocolate. O que vê nas várias fotografias é um pai que ele não reconhece. Um homem magro, desfigurado, totalmente nu, estendido sobre uma cadeira, braços caídos sobre o colo, demonstrando muito sofrimento, quase uma ausência de vida. No fundo da fotografia reconhece um homem, fardado, de braços para trás, numa posição de espectador. O general, seu futuro sogro, assistia com um olhar frio à morte do sapateiro.


Silvia Marchiori Buss

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