Mulheres do Mundo
“Eu mato aquele desgraçado!”
“Deixa disso, mulher, vai que ele te escuta. Vê se te acalma. Senão, quem vai morrer é tu.”
“Não sou obrigada a deitar com qualquer um. Ele não é meu dono!”
“Ah, não? Te engana, boneca. Desde o momento em que entrou nessa casa, tu pertence a ele. Por acaso não foi ele quem pagou pelo teu passaporte, pela passagem? Então esse corpinho aí, ó, não te pertence mais! Tua dívida com ele é eterna.”
Selminha escutava a amiga da casa, sabendo que tudo era a mais pura verdade. Até porque ela era mais experiente e estava há muitos anos sob o domínio do cafetão, vendendo seu corpo. A moça pobre do interior da Paraíba fora convencida pelo cafetão de que a vida no país das touradas era promissora, bastava assinar alguns papéis e pronto! Sua vida seria outra.
Selminha pensava, enquanto sussurrava:
“Outra! Claro que sim. Minha vida é outra… só que bem pior.”
“Não te escuto, mulher! Fala mais alto!”
“Estou pensando cá com meus botões”, respondeu Selminha. “Mas um dia ele me paga! Lá, pelo menos, sobrava algum pra minha mãe. Coitada da velha, é bem capaz de partir dessa pra outra melhor, sem me ver outra vez.”
“Cafetão covarde, nem meu filho pude ter! Desgraçado, mentiroso.”
“Já te falei, Selminha, se continuar falando assim, vai levar um tiro nos cornos. Aí sim, adeus a uma bela morena que caiu na lábia do bom pastor na tentação de enriquecer.”
Todas as mulheres que trabalhavam na casa foram atraídas pela promessa de dias fartos para, então, retornarem a seus países, constituírem família e esquecerem o passado. Com Selminha não foi diferente; há cinco anos estava nas mãos do cafetão e, dia a dia, via a esperança de dias melhores se apagando.
Aos trancos e sendo sacolejada, Selminha berrava ao descer a escadaria da casa:
“Não deito com ele. Já te falei, ele é sujo. É um brutamonte.”
“Quem manda sou eu, tá claro? Já tô de saco cheio, vou te dar uma coça, pode esperar que tem pra ti! Enquanto ele pagar direitinho, vai deitar e rolar conforme a música tocada por ele, ah, se vai!”
Enquanto as luzes do salão da casa se apagavam, deixando uma penumbra esfumaçada, Selminha sentou-se no balcão, serviu-se de um generoso copo de uísque. Esvaziou uma cartela de comprimidos, um a um, saborosamente degustados, como se fosse um manjar dos anjos.
Aos poucos, sentiu seu corpo atravessar o oceano e acomodar-se em uma cadeira de palha em frente à casa de sua mãe.

Silvia Marchiori Buss
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