Lua cheia

Desde que se conhecia por gente, Raimundo vivia às voltas com caixões, covas, defuntos e cemitério, porque nascera e se criara dentro de um. Depois de homem, seguiu a profissão do avô, que passou ao pai e que agora era sua. Tão logo perdera os pais, tornara-se o assistente oficial do cemitério da pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul.

Como filho único, herdou, além da profissão, a casinha que ficava quase dentro do cemitério. Era uma casinha bem ajeitada, onde cada cantinho guardava uma recordação. O rapaz gostava da morada que, apesar de simples, era bem silenciosa, já que seus “vizinhos” eram bem calmos e em nada o perturbavam.

Raimundo, moço forte, moreno, sempre simpático e solícito, não conseguia se casar, um de seus grandes desejos: formar família. Tão logo as moças descobriam sua profissão e, principalmente, sua morada, catavam o carreiro.

A solidão começava a incomodar o rapaz, que já pensava em abandonar tudo para viver um grande amor. Conflito vai, conflito vem, na noite de lua cheia, quando retornava do bailão, meio alto, escutou um sensual “psiu”, seguido de um ventinho na nuca. Pensando ser o vento, já que o tempo estava “virando”, seguiu assoviando rumo à morada... Mais uns passos e, novamente, escutou outro “psiu” junto do ventinho na nuca, desta vez seguido de um arrepio que lhe percorreu todo o corpo. Parou! Revirou os olhos para o lado do ventinho e vislumbrou a moça mais linda que já vira na vida.

A partir dessa lua cheia, Raimundo não pensou mais em abandonar a profissão, tampouco em deixar sua morada. Casar pra quê? — pensava Raimundo — afinal, o rapaz havia encontrado sua alma gêmea.


Silvia Marchiori Buss

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