Escamas do corpo

Gisele sempre fora uma mulher admirável, vibrante e cheia de vida. Aos olhos dos outros, sua imagem no espelho refletia a personificação da felicidade e do sucesso: casada há décadas, mãe, avó, sempre com um sorriso no rosto. No entanto, essa aparência escondia uma fragilidade que nem ela mesma reconhecia. As escamas de uma vida de aparências, de dependência emocional, começaram a se formar lentamente, até que a pele de Gisele, antes radiante, foi sendo coberta por camadas de uma existência sem propósito próprio. 


O golpe mais duro veio numa manhã comum de sábado, quando Gisele, voltando de sua caminhada matinal, encontrou o marido, agora ex-marido, arrumando as malas. Ele a comunicou friamente que estava indo embora, trocando-a por uma mulher mais jovem, com quem criaria o filho de oito anos da nova companheira. A vida de Gisele, que já há muito se prendia à ilusão de uma felicidade estável, desmoronou naquele instante. O espelho que antes refletia seu orgulho de mulher bem-casada, agora parecia zombar da sua ingenuidade.

Desde aquele dia, Gisele mergulhou em um luto profundo, não apenas pela perda do casamento, mas pelo confronto com uma verdade ainda mais dolorosa: ela vivera décadas à sombra do marido, dedicando sua vida e identidade a alguém que, ao final, não reconhecia mais seu valor. Sua casa, repleta de espelhos que antes refletiam sua autoestima baseada no olhar do outro, tornou-se um lugar de lembranças insuportáveis. Tudo nela lembrava a presença ausente daquele que era sua âncora.

Gisele, antes tão ativa e autossuficiente, foi lentamente definhando. Cada manhã era um esforço árduo para levantar-se da cama, seu corpo enfraquecido pelo sofrimento e pela falta de vontade de viver. As redes sociais exibiam a nova família do ex-marido, sempre sorridentes, enquanto Gisele observava de longe, sentindo-se apagada, obsoleta. Sua família, por mais que tentasse ajudar, não conseguia trazê-la de volta à vida.

Os dias se transformaram em semanas, e as semanas em meses. A mulher que antes era sinônimo de força e resiliência agora se via como uma figura pálida, incapaz de reconhecer sua própria imagem. Contudo, algo começou a mudar. Lentamente, Gisele percebeu que o abandono mais cruel não havia sido o de seu marido, mas o seu próprio. A dor do término do casamento abriu seus olhos para uma verdade que ela evitara por décadas: ela tinha se abandonado a si mesma muito antes de ser deixada por qualquer outra pessoa.

As escamas que cobriam seu corpo e sua alma começaram a cair. Primeiro, ela desnudou os espelhos cobertos pela casa. Não porque precisava de novo do reflexo do outro, mas porque queria se ver como realmente era: uma mulher ainda viva, capaz de reconstruir sua história. Aos poucos, começou a rearranjar os móveis, a limpar a casa não mais como um monumento ao passado, mas como um espaço onde poderia redescobrir a si mesma.

Gisele compreendeu que as escamas que a envolviam não eram impostas pelo tempo ou pelas circunstâncias. Elas foram construídas por anos de falta de amor-próprio, pela dependência emocional que permitiu que o marido fosse o centro de sua existência. Agora, no ocaso da vida, ela decidiu que não seria tarde demais para encontrar seu verdadeiro valor.

Com cada dia que passava, Gisele foi removendo as camadas que a sufocavam, libertando-se de uma versão de si que não mais lhe servia. E com cada escama removida, ela renascia, pronta para viver, pela primeira vez em muitos anos, como a protagonista de sua própria história. O futuro, que antes parecia árido e sem vida, agora começava a florescer com novas possibilidades. A mulher, outrora subjugada pelo abandono, finalmente encontrou a si mesma.


 

Silvia Marchiori Buss


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