A Casa Mal-Assombrada
O casarão do lago é uma grande e espaçosa casa, construída no século dezoito por uma família que desapareceu da terra sem deixar descendentes, simplesmente sumiram. Era conhecida como sendo mal-assombrada pelos moradores do lugar. A casa fora construída junto ao maior lago da região, costeado por uma cordilheira de montanhas que davam ao ambiente a sensação de que ali teria sido o início do mundo... ou quem sabe o fim de algum mundo? O som das águas e das montanhas despistavam o silêncio, indicando a presença de vida.
O imenso e profundo lago já fora muito frequentado pelo povo do vilarejo e, por vezes, pelas pessoas da capital que vinham à procura de um lugar fresco, que pudesse amenizar as longas tardes de verão. Aos finais de tarde, o lago costumava ficar cheio de gente, famílias inteiras, para assistirem ao pôr do sol.
O casarão era estupendo; dava de frente para o lago, uma vista indescritível. Possuía várias salas, dormitórios, jardins, tudo muito amplo e bem construído. Uma grande biblioteca chamava atenção pela sua mobília e seu acervo, toda decorada com móveis do século quinze. Estantes gigantescas se comunicavam entre si por escadas que deslizavam com um pequeno toque. A sala de jantar ocupava o centro do casarão, localizada logo depois do pomposo hall. A mesa, igualmente grande, deveria ter assistido a fantásticos jantares. Continuava no mesmo lugar, assistindo outros jantares, agora do século vinte.
As varandas que cercavam a casa davam vista tanto para o profundo lago quanto para a cadeia de montanhas. Uma casa dos sonhos. O imenso lago, antes muito frequentado, fora abandonado pela população, por ser muito traiçoeiro, como costumavam dizer, e já havia tragado gente demais. Essa parte da natureza fora esquecida, portanto protegida do desgaste provocado pelo homem.
Tanto melhor, pensam os novos moradores do casarão, donos absolutos do paraíso: Clarice e Peter. Adquiriram a tão sonhada casa através de um anúncio no jornal; há muito procuravam uma moradia grande e confortável para acomodar sua grande família: o casal e seus treze filhos. O casal se conhecera na universidade e se formaram em psicologia. Logo, casaram-se. Não tardou para começarem a ter filhos; ano sim, ano não, um bebê novinho em folha chegava para completar a felicidade do casal. Adoravam ter crianças e fazer crianças.
Clarice não exercia sua profissão como psicóloga, pois precisava tomar conta da casa e dos filhos, cujas idades variavam dos dezoito até o bebê de um ano e meio. Os meninos estudavam na capital; todas as manhãs era uma verdadeira maratona até que o ônibus escolar chegasse para buscá-los. Desde muito cedo, a casa já estava em intenso movimento. Menos mal que havia vários banheiros, porque o tempo para arrumarem-se era grande. Os maiores, apesar de se virarem sozinhos, eram os que mais tardavam a chegar para o café da manhã. Peter acompanhava a mulher nessas tarefas por pouco tempo da manhã, pois deveria estar no hospital ainda cedo; à tarde, se dedicava ao consultório particular. A confusão era tanta que, por vezes, Clarice parecia estar perdendo a lucidez.
Quatro de seus filhos, os menores, que ainda não tinham idade escolar, ficavam o dia todo no casarão, portanto aos cuidados da mãe, que também era responsável pela organização da casa. Contava com a ajuda de apenas uma senhora, já um pouco velha para o serviço da casa, mas que ao menos olhava pelos pequenos. A dona da casa não entendia a razão pela qual não conseguia ajudantes, afinal, pagava um bom salário, um dia de folga semanal, boas acomodações, enfim, uma mordomia comparada à dela. As candidatas, ao chegarem para a entrevista, se deparavam com o casarão e logo desistiam. Todas eram categóricas em afirmar que a casa era mal-assombrada, assim como o lago profundo.
Clarice sempre achou isso uma bobagem. Imagina, casa mal-assombrada, só em filme de ficção. "Estamos no século vinte", pensava indignada. Se perguntava em que século essas pessoas haviam parado. "Acreditam em fantasmas?" Era demais para ela, uma psicóloga. Deixou para lá...
Haviam se mudado para o novo e imenso lar no dia vinte e nove de fevereiro, ano bissexto, exatamente um mês antes. Pensou em fazer um bom jantar para comemorarem a ocasião. Aproveitou para exercitar seus dotes culinários enquanto as crianças estavam na escola e os pequenos sendo cuidados pela velha senhora, que nada dizia o dia todo. Abstinha-se de qualquer comentário, mesmo quando era indagada sobre algo. Clarice estranhava toda essa gente.
Nessa noite, na hora do jantar, percebeu a ausência do filho mais velho. Chamou o menino, mas não obteve resposta. Foi quando outro filho, um ano mais novo, respondeu que ele havia saído e não voltaria para o jantar. Clarice, atarantada de tanto trabalho e já cansada das tarefas do dia, percebeu que esse menino estava com a voz diferente, parecendo a voz do mais velho. Também notou que ele vestia duas calças, uma dele e outra do irmão ausente, duas blusas — igualmente uma dele e outra do irmão mais velho —, duas meias, enfim, tudo em dobro. Pensou que fosse uma brincadeira; sua profissão a ensinara que existem fases em que as crianças parecem um pouco estranhas, mas que se resolvem.
Peter também entendia como Clarice e nada falou ao pequeno que vestia, além de suas roupas, as do irmão, e durante todo o jantar tomava atitudes semelhantes às dele. Nessa noite, o pequeno comeu jiló, algo que não era de seu agrado, mas sim do irmão mais velho. Repetiu e até lambeu os lábios. "Normal", pensou a mãe, "fase de mudanças".
O jantar foi agradável. Todas as crianças, como de costume, auxiliaram a mãe na arrumação da cozinha; uns retiravam os pratos, outros lavavam os copos, enfim, todos contribuíam. Nessa noite, o menino que estava querendo "imitar" o mais velho se rebelou e, exatamente como o irmão, não ajudou em nada. Era de estranhar, pois ele sempre foi solícito nas pequenas tarefas da casa.
Peter recolheu-se à biblioteca, como de costume, para adiantar suas tarefas. Pouco percebia que coisas desse tipo andavam acontecendo na casa. Clarice, por sua vez, preferia não aborrecê-lo. Afinal, as crianças, pelo menos, ela devia atender, já que ele trabalhava muito além do horário para cumprirem com o pagamento da hipoteca do casarão.
Na manhã seguinte, a menina, que sempre vestira delicados vestidos apropriados para sua idade, apareceu para o café da manhã com as roupas de um de seus irmãos. Vestia os trajes de futebol do menino e, sobre as mesmas, usava seu delicado vestido, suas roupas habituais.
A mãe perguntou ao mais velho, que não estivera no jantar, onde havia estado na noite passada. A resposta foi imediata: "Aqui! Até comi jiló, estava muito bom, deve repetir a receita." A mãe, sem tempo, apenas riu. "Brincalhões, esses meninos."
Percebeu a falta do outro filho, o qual a menina estava tentando "imitar". Foi quando a garota, vestida de jogadora do time da escola e usando um linguajar que em nada se parecia com o seu, disse que ele saiu mais cedo e foi à escola de bicicleta, pois tinha uma tarefa inacabada. "Tudo bem", pensou a mãe, "tarefas em primeiro lugar." A menina comeu demais, fez gestos e se comportou à mesa como o moleque, que nesse dia se absteve do café para chegar mais cedo à escola. Clarice tentou entender, como profissional, que a menina estava querendo se mostrar, chamar atenção. Pensou que estava com pouco tempo para conversar com as crianças. As tarefas da casa tomavam a maior parte de seus dias. O marido trabalhava demais, chegava muito cansado e logo se recolhia.
Outro fato inusitado ocorreu com sua pequena Anna, uma menina de seis anos de idade, muito meiga e serena, diferente de seu irmão gêmeo, Lucca, que era um menino tirano, brigão e falante. Nesse dia, a menina passou a ter atitudes desconhecidas para a mãe. Estava reagindo exatamente como seu irmão, que, segundo ela, teria ido até o lago para ver se algum peixe havia se prendido no anzol de espera. Depois de informada pela menina, que além de estar com as atitudes do irmão também vestia suas roupas, Clarice ficou mais sossegada, mas perturbada com os inusitados sumiços dos filhos, ora de um, ora de outro. Não parava de pensar. Parecia uma confraria, todos unidos tentando enlouquecê-la. Os desaparecimentos e as trocas de personalidades foram intrigando a mulher, com toda a razão, pois a cada dia um sumia e outro tomava atitudes do ausente. O que estariam eles querendo dizer? Talvez estivessem querendo chamar atenção, porque tanto ela quanto o marido andavam sempre muito ocupados. Tudo para a casa dos sonhos.
Certa manhã, Clarice acorda, veste um traje azul-marinho, o preferido de seu marido, coloca a colônia costumeira e de aroma bem conhecido, que logo se espalha por todo o quarto do casal. Desce as escadas, já com a pasta de trabalho nas mãos, e vê as crianças espantadas, que perguntam: "Por que o pai está com suas roupas e preparando os ovos mexidos e as torradas?" Mais espantadas ficam quando veem a mãe, totalmente com as vestes e as atitudes do pai. Ambos sorriem, como se entendessem que os filhos estavam de brincadeira com eles.
Clarice, hoje Peter, e Peter, hoje Clarice, passam pela porta do casarão. Ele em frente ao ônibus, despedindo-se das crianças, e ela já arrancando o carro. Foi quando perceberam que estava tudo trocado. Ele não era ele, e ela não era ela. O que está acontecendo? Os quinze reúnem-se no quintal, preferem deixar a casa de lado. Todos sentados no jardim, cada qual com uma cara mais espantada do que o outro, contam que haviam passado por situação semelhante e só percebiam suas atitudes, que não eram deles, no momento em que deixavam a casa.
Foi então que começaram a acreditar que a casa não só era assombrada, como estava pregando uma pegadinha neles.
O jornal da capital anuncia a venda de um belo casarão, às margens do lago, onde o silêncio só é interrompido pelo som da água e das montanhas... verdadeira casa dos sonhos.

Silvia Marchiori Buss
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