Vestida de Chuva
A mulher vestida de chuva apareceu na cidade numa tarde em que os guarda-chuvas tinham desistido de proteger alguém. A água caía torta, empurrada pelo vento, escorrendo pelas vitrines, entrando pelas mangas das roupas, atravessando sapatos caros e chinelos baratos com a mesma intimidade. Havia quem corresse pelas calçadas como se pudesse vencer o tempo até a próxima marquise, e havia quem aceitasse o temporal com a resignação dos que já entenderam que certas coisas molham por dentro muito antes de alcançar a pele.
Ela surgiu caminhando
devagar.
Não parecia perdida. Também
não parecia procurar nada.
Vestia um casaco longo da
cor das nuvens antes do desabamento, e o tecido colava no corpo como se tivesse
sido costurado pela própria tempestade. Os cabelos escuros escorriam pelos
ombros sem esforço, e os olhos carregavam aquela distância comum em pessoas que
aprenderam a sobreviver olhando para lugares onde ninguém mais consegue
enxergar.
Os moradores começaram a
notar sua presença aos poucos.
O dono da banca de jornais
percebeu primeiro. Disse ao homem do café que ela atravessava a praça todos os
dias exatamente na hora em que as luzes dos prédios começavam a acender. A moça
da floricultura comentou que as flores pareciam durar mais quando ela passava
pela rua. Uma criança jurou ter visto pequenas poças refletirem estrelas em
plena tarde cinzenta depois que a mulher tocou a água com a ponta do sapato.
Mas ninguém sabia de onde
vinha.
Ela alugou um quarto antigo
acima de uma lavanderia que cheirava permanentemente a sabão e ferro quente. O
prédio tinha corredores estreitos e uma escada que gemia sob qualquer passo
mais decidido. Ainda assim, ela subia silenciosa, como se já conhecesse cada
degrau antes mesmo de morar ali.
À noite, deixava a janela
aberta.
A chuva entrava sem pedir
licença.
Os vizinhos estranhavam.
Pessoas normais fechavam janelas durante temporais. Pessoas normais protegiam
móveis, roupas, fotografias. Mas ela parecia permitir que a água percorresse a
casa inteira. Pela fresta da porta, às vezes viam cortinas úmidas balançando
devagar e ouviam música baixa, antiga, dessas que parecem tocar dentro de
lembranças e não dentro de aparelhos.
Com o tempo, começaram a
inventar histórias.
Disseram que ela perdera
alguém no mar.
Disseram que havia
sobrevivido a uma enchente que levou metade da família.
Disseram até que a mulher
não envelhecia porque a chuva lavava o tempo antes que ele grudasse nela.
Ela nunca confirmou nada.
No café da esquina, sentava
sempre perto da vidraça embaçada. Pedia chá quente mesmo nos dias abafados e
observava as pessoas caminhando sob o peso do céu. Às vezes sorria sozinha, um
sorriso pequeno, cansado, quase invisível. Como quem se lembrasse de uma frase
dita há muitos anos por alguém que já não estava mais ali.
Foi numa dessas tardes que
o homem apareceu.
Entrou no café carregando o
cheiro de livros antigos e frio de rua. Tirou o casaco encharcado, pediu café
sem açúcar e demorou alguns segundos até perceber a mulher junto à janela.
Quando percebeu, ficou imóvel.
Não como quem reencontra
alguém.
Como quem reencontra uma
parte da própria vida que julgava perdida.
Ela não se assustou.
Apenas baixou os olhos para
a fumaça do chá, enquanto a chuva engrossava do lado de fora.
O homem aproximou-se
devagar.
Sentou sem pedir licença.
E durante muito tempo
nenhum dos dois falou coisa alguma.
O silêncio entre eles não
era vazio. Tinha peso, memória, ferrugem. Parecia carregado de portas fechadas
cedo demais, cartas nunca enviadas, quartos abandonados ainda cheios do cheiro
de alguém.
Lá fora, os carros riscavam
a rua molhada como barcos perdidos.
Então ele perguntou:
— Ainda chove em você?
Ela demorou para responder.
Passou os dedos pela borda
da xícara, observando a pequena corrente de água que escorria do vidro da
janela.
— Às vezes menos — disse. —
Às vezes o mundo inteiro.
Ele sorriu de um jeito
triste, como quem reconhece uma antiga ferida no corpo de outra pessoa.
Conversaram até anoitecer.
Ninguém no café conseguiu
ouvir direito o que diziam. Apenas perceberam que, em certos momentos, os dois
olhavam para fora como se acompanhassem algo invisível atravessando a rua sob a
tempestade.
Quando saíram, caminharam
lado a lado sem guarda-chuva.
A cidade inteira parecia
coberta por um nevoeiro fino, desses que apagam contornos e fazem os prédios
parecerem lembranças mal guardadas.
Alguns juram que os dois
seguiram até a ponte no fim da avenida.
Outros dizem que entraram
numa rua estreita onde as luzes falhavam.
Há quem afirme que a mulher
vestida de chuva nunca mais foi vista.
Mas em noites muito úmidas,
quando o vento espalha água pelas janelas e certas saudades acordam sem motivo,
ainda existe quem olhe para a praça vazia e tenha a impressão de que alguém
atravessa lentamente a cidade usando um casaco feito do próprio temporal.
Silvia Marchiori Buss
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