Várias Dentro de Uma
A mulher é um “bicho” estranho mesmo, como escreveu Fabrício Carpinejar.
Sangra todos os meses e continua.
O corpo avisa dor, cansaço, mudança, peso, cólica, silêncio… e ainda assim ela
levanta, prende o cabelo, coloca um curativo invisível na própria
vulnerabilidade e sai para o mundo como quem não teve escolha além de seguir.
E segue.
Vai dirigir ônibus, pilotar
avião, dar aula, operar alguém numa sala cirúrgica, limpar corredores de
hospital, vender pão, julgar processos, recolher lixo da cidade, escrever
livros, atender telefone, cuidar de idosos, apagar incêndios, servir café, administrar
empresas, cuidar dos filhos das outras, estudar madrugada adentro, carregar
filhos no colo e preocupações na alma.
Há mulheres que salvam
vidas.
Há mulheres que organizam vidas.
Há mulheres que sustentam vidas inteiras sem que ninguém perceba o peso que
carregam nos ombros.
E mesmo quando o mundo
diminui tudo isso à palavra “sensibilidade”, quase nunca enxergam o quanto
existe de resistência dentro de um corpo feminino.
Porque há uma força
silenciosa na mulher que a fisiologia nunca conseguiu enfraquecer. Pelo
contrário. O mesmo corpo que sangra é o corpo que pode gerar outro corpo. O
mesmo organismo que sente dores profundas é capaz de alimentar, proteger,
acolher, ensinar e reconstruir afetos enquanto continua funcionando como se
fosse obrigatório permanecer inteira.
Nem toda mulher será mãe.
Nem toda mulher desejará ser mãe.
Mas existe algo profundamente grandioso no fato de que o corpo feminino
carrega, em potência, essa possibilidade de criar vida — e ainda assim
continuar trabalhando, lutando, resolvendo, amparando e sobrevivendo num mundo
que muitas vezes exige dela mais do que deveria.
Talvez por isso tantas
mulheres aprendam cedo a cuidar mesmo estando cansadas.
A sorrir mesmo feridas.
A proteger os outros enquanto tentam discretamente costurar as próprias partes.
E talvez esteja aí uma das
verdades menos ditas sobre elas:
a mulher não é forte porque suporta tudo.
A mulher é forte porque, mesmo sentindo tudo, continua.
Silvia Marchiori Buss
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