Um Zíper no Peito

Havia dias em que Eduarda andava pela casa como quem carrega água dentro do corpo — qualquer movimento mais brusco e tudo parecia transbordar. Não era uma dor que começava em algum lugar exato. Não vinha do peito, nem da garganta, nem dos olhos. Era pior. Parecia morar entre os ossos, ocupando os espaços silenciosos que ninguém vê.

Ela continuava fazendo café, dobrando roupas, respondendo mensagens com frases curtas demais para explicarem alguma coisa. As pessoas olhavam e viam uma mulher funcionando. Só Eduarda sabia do esforço absurdo que existia em conseguir abrir as janelas pela manhã sem desabar junto com elas.

À noite, quando a casa finalmente silenciava, ela se sentava no chão do quarto e apoiava as costas na cama, como fazia desde menina quando alguma tristeza parecia maior que o próprio corpo. Havia algo quase infantil naquele hábito, mas também alguma espécie de sobrevivência. Porque o chão, ao menos, não fingia.

Foi numa dessas noites que pensou no zíper.

Imaginou um zíper comprido atravessando seu peito, da garganta até um pouco abaixo do coração. Não um daqueles delicados de vestido, mas pesado, metálico, quase bruto. E imaginou os dedos puxando devagar aquele fecho, abrindo a pele como quem abre uma mala antiga esquecida no fundo do armário.

Talvez a dor pudesse sair dali.

Talvez escorresse para fora em silêncio, como água acumulada atrás de uma barragem rachada. Talvez tivesse cor. Talvez cheiro. Talvez saíssem também as palavras que ela nunca conseguiu dizer enquanto o outro ainda estava ali escutando pela metade.

Eduarda ficou algum tempo encarando essa ideia absurda.

Depois pensou no que encontraria dentro de si se realmente pudesse abrir o peito daquele jeito.

Não encontrou respostas bonitas.

Viu corredores escuros, cadeiras vazias, restos de domingos felizes ainda respirando em algum canto. Viu mãos que já haviam tocado as dela e não estavam mais ali. Viu promessas esquecidas secando como flores velhas dentro de livros. Viu a fadiga de continuar existindo quando uma parte da vida havia ido embora sem lhe pedir licença.

Mas viu outra coisa também.

A dor não estava sozinha.

Misturada nela havia amor. Muito. Tanto que chegava a ser cruel. Porque só dói desse jeito aquilo que um dia foi morada.

Eduarda então compreendeu algo que não trouxe alívio, apenas cansaço: se abrisse o peito e arrancasse a dor para fora, talvez levasse junto tudo aquilo que ainda restava da história que vivera.

E havia dias em que perder a dor parecia quase tão assustador quanto continuar sentindo.

Lá fora começou a chover fino. A chuva batia contra as janelas. A casa permaneceu imóvel ao redor dela, enquanto Eduarda continuava sentada no chão, os braços abraçando os próprios joelhos, como se tentasse impedir que alguma parte sua escapasse durante a madrugada.

O zíper imaginário continuava ali. Às vezes ela quase podia senti-lo sob a pele.

Mas não abriu.

Não naquela noite.

Silvia Marchiori Buss

 

 

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