Sessão de Terapia
A cadeira era macia demais para quem não queria afundar. Ainda assim, ela se acomodava como quem aceita um acordo silencioso: ficar ali por cinquenta minutos e não fugir de si mesma — pelo menos não completamente.
— Pode começar quando
quiser — disse a terapeuta, com aquela voz que não empurrava nem puxava, apenas
deixava.
Ela olhou para as mãos.
Sempre começava por elas, como se fossem outro corpo, menos comprometido com o
que doía.
— Eu não sei exatamente o
que dizer.
E havia verdade nisso, mas
também um cansaço antigo de saber demais e não conseguir organizar nada em
palavras. As frases vinham como móveis arrastados dentro da cabeça, fazendo
barulho, sem nunca se encaixarem no lugar certo.
O relógio na parede não
fazia som, mas ela sentia o tempo passando como um líquido lento, espesso,
quase visível. Pensou em quantas vezes já tinha estado ali, repetindo versões
diferentes da mesma ausência.
— Minha casa é silenciosa —
disse, por fim.
A terapeuta a olhou,
incentivando-a a continuar, como se o silêncio fosse uma matéria concreta.
— Não é um silêncio bom —
ela continuou. — Não é aquele de domingo, de livro aberto, de chuva lá fora. É
um silêncio que parece observar.
Parou. Engoliu uma palavra
que não quis nascer.
— Eu falo sozinha às vezes.
Disse sem vergonha, mas
também sem defesa. Como quem já ultrapassou a fase de se explicar.
— Sobre o quê?
Ela pensou. Sobre coisas
pequenas, quase invisíveis.
— Sobre o café que ficou
forte demais. Sobre uma camisa que eu ainda não tive coragem de doar. Sobre… —
fez um gesto vago com a mão — coisas que não respondem.
A terapeuta anotou algo. O
som da caneta riscando o papel lhe deu uma estranha sensação de companhia.
— E antes? — veio a
pergunta, suave.
Antes era uma palavra
perigosa. Tinha bordas afiadas.
Ela recostou a cabeça,
olhando para o teto, como se ali pudesse projetar alguma lembrança menos
nítida.
— Antes havia barulho. Mas
não desses bons também. Era outro tipo de presença… uma presença pesada demais.
Como se a casa respirasse com dificuldade.
Não explicou mais. Não era
falta de vontade, era falta de precisão. Certas coisas, quando ditas, ficam
menores do que realmente foram.
— E agora?
Ela sorriu de leve. Não era
um sorriso de alegria, mas de reconhecimento.
— Agora a casa respira
melhor. Só que… — pausou — parece grande demais para uma pessoa só.
O ar entre as duas ficou
suspenso, como se aquela frase precisasse de espaço.
— Eu achei que ia gostar
disso — continuou. — Da liberdade, do espaço, de não ter que… ajustar tudo o
tempo inteiro. E eu gosto, às vezes. Só que tem horas que parece que eu
desapareço dentro dos cômodos.
A terapeuta inclinou
levemente o corpo para frente.
— Desaparece como?
Ela demorou para responder.
Procurava uma imagem que não soasse exagerada.
— Como se eu fosse ficando
menos necessária. Menos… visível. — Olhou novamente para as mãos. — Não tem
ninguém esperando eu chegar. Ninguém percebendo se eu fiquei um pouco mais
quieta, ou se eu ri de alguma coisa boba.
Silêncio.
— E você percebe?
A pergunta ficou ali,
simples demais.
Ela respirou fundo.
— Nem sempre.
Era isso. O ponto que não
se organizava.
A terapeuta não disse nada
por alguns segundos, e, nesse intervalo, algo dentro dela quase se acomodou,
como uma peça que finalmente encontra um encaixe — não perfeito, mas possível.
— Talvez a gente possa
começar por aí — disse a terapeuta.
Ela concordou com um leve
balançar de cabeça, sem saber exatamente o que significava “aí”. Mas havia algo
menos pesado no ar, como se a solidão tivesse sido colocada sobre a mesa e, por
um instante, deixado de ocupar o corpo inteiro.
O relógio continuava sem
som.
Lá fora, alguém passou pelo
corredor: passos rápidos, uma vida em movimento que não tinha relação com
aquela sala.
Ela descruzou as mãos.
— Eu trouxe um sonho hoje —
disse, de repente, como se lembrasse de algo esquecido no bolso.
A terapeuta levantou os
olhos, atenta.
E ela começou a contar,
devagar, escolhendo cada palavra como quem ainda não sabe se quer mesmo que o
outro entenda.
Silvia Marchiori Buss
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