Saudades e Bilhetes Perdidos

Não era falta de alguém. Era a ausência exata dele — com o peso do nome, do jeito, das pequenas manias que não se substituem.

Ela descobriu isso aos poucos, enquanto a casa ainda insistia em parecer inteira.

No primeiro dia, escreveu um bilhete curto e deixou sobre a mesa da cozinha, preso sob o copo que ele costumava usar.

“Voltei mais cedo hoje.”

A frase não fazia sentido sozinha, mas fazia sentido para quem conhecia a rotina interrompida. Para quem saberia que, naquele dia, ela tinha inventado um motivo qualquer para não ficar mais tempo fora.

No segundo dia, deixou outro, dobrado ao meio, apoiado no braço da poltrona.

“Comprei aquele pão que você gosta.”

Não comprou. Escreveu como se tivesse. Como se a escrita pudesse antecipar a realidade, ou talvez corrigir o que já não podia ser corrigido.

Os bilhetes começaram a se espalhar pela casa com uma disciplina silenciosa. Na beira da pia, ao lado do espelho, entre as páginas de um livro que ele nunca terminou. Ela escrevia sempre à mão, com a mesma caneta azul — a tinta já falhando nas últimas palavras, como se também estivesse cansada.

Não eram cartas longas. Não explicavam nada. Não pediam retorno.

Evitava perguntas.

Havia aprendido, sem que ninguém precisasse dizer, que certas perguntas só fazem barulho quando não há quem responda.

Às vezes, escrevia como quem comenta um dia comum:

“Choveu à tarde. A casa ficou mais escura do que devia.”

Outras vezes, aproximava-se mais dele, como se o bilhete fosse um gesto físico:

“Deixei sua camisa dobrada. Não tive coragem de guardar.”

E havia dias em que não escrevia sobre nada concreto. Apenas deixava uma frase que parecia ter sobrado de algum lugar:

“Hoje doeu mais cedo.”

Com o tempo, os bilhetes passaram a ser menos sobre o que acontecia e mais sobre o que permanecia. A casa foi ficando tomada por essas pequenas presenças de papel — discretas, mas inevitáveis. Como se cada cômodo guardasse um pedaço do que ainda não tinha ido embora.

Ela não recolhia os antigos.

Não fazia arquivo, nem organizava. Deixava que ficassem onde estavam, como migalhas de um caminho que não levava a lugar algum, mas que também não podia ser apagado.

Houve um dia em que esqueceu de escrever.

Percebeu só à noite, quando passou pela sala e não encontrou nenhum papel novo. Parou no meio do caminho, como se tivesse falhado em algo importante — não com ele, mas com a continuidade daquilo que ainda os mantinha, de algum modo, próximos.

Sentou-se à mesa e escreveu às pressas, com a letra menos firme:

“Desculpa o atraso.”

Não explicou o motivo.

Nunca explicava.

Os dias seguiram sem mudança visível. A casa continuava no mesmo lugar, os objetos obedientes, o silêncio com suas variações mínimas. Mas havia algo que se movia, muito devagar, entre um bilhete e outro.

Não era esperança.

Também não era despedida.

Era um tipo de permanência que não dependia mais da volta.

Numa manhã qualquer, ela abriu a janela do quarto — aquela que ele sempre deixava entreaberta — e o vento atravessou a cortina com uma familiaridade quase atrevida. Alguns bilhetes da mesinha, deslizaram até o chão.

Ela não correu para pegá-los.

Ficou olhando o movimento, como quem reconhece um gesto antigo em outro corpo.

Mais tarde, recolheu um deles. Não abriu. Dobrou de novo, com cuidado, e deixou no mesmo lugar.

Naquela noite, escreveu apenas uma linha, em um papel menor do que os outros, e deixou sobre o travesseiro vazio:

“Continuo deixando a casa aberta.”

E foi dormir sem apagar a luz do corredor, como se alguém ainda pudesse precisar de caminho.Parte superior do formulário

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Silvia Marchiori Buss

 

 

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