Os Três Neurônios de Dona Josefa

Dona Josefa acordava todos os dias com apenas três neurônios disponíveis para uso imediato. Não era força de expressão. Eram literalmente três. E todos moravam na mesma cabeça apertada, como inquilinos de pensão antiga dividindo banheiro.

O primeiro chamava-se Tico.

O segundo, Teco.

O terceiro ninguém sabia exatamente de onde tinha vindo. Surgira numa madrugada de insônia, depois de uma sopa requentada e um programa policial assistido até às duas da manhã. Chamava-se Sabotador.

Tico era responsável pelas decisões básicas:
— Não coloca o sal no café.

Teco cuidava das emergências:
— Josefa, isso não é o controle da televisão. É o telefone.

Já o Sabotador não tinha função útil alguma. Era concursado da desgraça.

Ele aparecia principalmente em situações humilhantes.

Numa terça-feira, por exemplo, Dona Josefa entrou numa farmácia decidida a comprar laxante. Estava há cinco dias vivendo uma relação tóxica com o próprio intestino.

Tico organizava a frase:
— Boa tarde, eu gostaria de…

Teco ajudava:
— …um medicamento para prisão de ventre.

Mas o Sabotador empurrou os dois escada abaixo e assumiu o microfone:
— Boa tarde. Meu intestino virou uma ditadura militar.

A farmácia inteira silenciou.

Uma criança começou a rir perto dos absorventes.

A balconista tirou os óculos devagarinho, como quem precisava enxergar melhor o sofrimento humano.

Josefa saiu dali apenas com um hidratante labial e traumas novos.

Em casa, os neurônios brigavam.

— Você destruiu tudo! — gritava Tico.

— Ela nunca mais entra naquela farmácia! — reclamava Teco.

O Sabotador ria fumando um cigarro imaginário:
— Mas vocês viram a cara da atendente? Arte. Humor refinado.

O problema era que o Sabotador crescia diante do constrangimento. Quanto maior a vergonha, mais forte ele ficava.

Foi ele quem fez Dona Josefa acenar de volta para alguém que não estava acenando para ela.

Foi ele quem a fez chamar o genro de “meu amor” numa churrascaria lotada.

E foi também ele quem a convenceu de que cortar a própria franja às onze da noite “não parecia tão difícil”.

Parecia.

No dia seguinte, Josefa surgiu parecendo uma mistura de cantora sertaneja abandonada com missionária medieval.

— Está torta — disse Teco horrorizado.

— Está curta — corrigiu Tico.

O Sabotador observava satisfeito:
— Está conceitual.

Mas nada se comparava ao período em que Dona Josefa resolveu voltar a namorar depois que ficou viúva.

Aquilo quase matou Tico.

Teco envelheceu sete anos em dois meses.

E o Sabotador encontrou finalmente sua razão de existir.

O primeiro namorado chamava-se Anselmo.

Conheceram-se no mercado, perto das bananas, onde homens aposentados misteriosamente acreditam que são irresistíveis.

Anselmo usava boina, perfume forte e sorria como apresentador de bingo beneficente.

— A senhora tem um sorriso interessante — disse ele.

Tico ficou nervoso:
— Meu Deus… um flerte.

Teco tentava manter a dignidade:
— Apenas agradeça normalmente.

Mas o Sabotador já deslizava de barriga pelo cérebro dela igual criança em piso molhado.

Josefa respondeu:
— Tenho também refluxo e bursite, caso queira um pacote completo.

Anselmo riu tanto que quase derrubou o carrinho.

E pior: gostou dela.

Começaram a sair.

Cinema, café, caminhadas lentas de gente que já não atravessa rua correndo nem por assalto.

No terceiro encontro, Anselmo tentou criar um clima romântico.

Levou flores.

Abriu a porta do carro.

Disse:
— Você está muito bonita hoje.

Tico emocionou-se.

Teco preparava uma resposta elegante.

Mas o Sabotador puxou o freio da sanidade.

Josefa estreitou os olhos e perguntou:
— Tu ronca?

Anselmo ficou imóvel.
— Como?

— Porque homem que ronca destrói qualquer sentimento. Estou só tentando evitar sofrimento futuro.

O romance nunca mais se recuperou totalmente.

Dias depois ela ainda piorou a situação perguntando:
— Tua próstata anda bem?

Anselmo terminou alegando “pressão psicológica”.

O segundo namorado chamava-se Osvaldir.

Viúvo. Educado. Usuário compulsivo de mensagens de bom dia com girassóis brilhantes.

Todos os dias chegava uma imagem diferente.

“Que Deus ilumine sua terça.”

“Espalhe amor.”

“Você é especial.”

Tico sentia vergonha.

Teco cogitou bloquear.

Mas o Sabotador adorava aquele entretenimento cafona.

Osvaldir levava Josefa para caminhar na praça e dizia frases perigosamente sentimentais:
— O amor não envelhece.

Ela até achava bonito.

Mas desconfiava profundamente de qualquer homem acima dos setenta falando em amor como adolescente de novela mexicana.

Mesmo assim tentou.

Comprou perfume novo.

Passou batom discreto.

Chegou até a ouvir músicas românticas sem revirar os olhos.

Numa noite particularmente emotiva, Osvaldir segurou as mãos dela e perguntou:
— Josefa… você acredita que duas pessoas podem se reencontrar na velhice e ainda viver uma grande história?

Tico procurava palavras doces.

Teco organizava uma resposta gentil.

Mas o Sabotador se levantou lentamente da cadeira de praia dentro da cabeça dela e apertou o botão do apocalipse.

— Depende da pressão arterial dos dois.

O silêncio caiu sobre a mesa igual toalha molhada.

Osvaldir piscou devagar.

A vela parecia constrangida.

Até o garçom diminuiu a velocidade.

Ela tentou consertar:
— Não foi isso que eu quis dizer…

Mas já era tarde.

Porque o Sabotador não destruía apenas frases.

Ele destruía atmosferas inteiras.

Osvaldir terminou semanas depois dizendo:
— Você transforma qualquer romance numa consulta geriátrica.

Josefa ficou triste.

Mais triste do que admitiu.

Naquela noite, ficou olhando metade vazia da cama enquanto esquentava chá na cozinha.

Porque havia uma solidão silenciosa dentro dela que nem o Sabotador conseguia ridicularizar completamente.

Ela sentia falta de dividir pequenas coisas.

De alguém perguntando se queria café.

De uma reclamação sobre o preço do tomate.

De ouvir um “boa noite” vindo do outro lado da casa.

Mas o velório ainda seria pior.

Muito pior.

Josefa estava emocionada. O falecido fora amigo antigo da família. Ambiente silencioso. Solene. Pessoas chorando baixinho.

Tico preparava a fala correta:
— Meus sentimentos.

Teco reforçava:
— Apenas isso. Curto. Digno.

Mas o Sabotador, aquele inimigo interno criado talvez pelo próprio capeta depois de uma crise administrativa no inferno, resolveu agir.

Quando chegou diante da viúva, Dona Josefa segurou as mãos dela e disse:
— Pelo menos ele descansou… porque vivo ele já não fazia nada mesmo.

O salão congelou.

Um homem se engasgou com o café.

A viúva piscou lentamente duas vezes, como quem reconsiderava o crime perfeito.

Tico desmaiou.

Teco pediu exoneração.

O Sabotador apenas cruzou as pernas dentro do cérebro dela e comentou:
— Timing impecável.

Naquela noite, Josefa chorou sozinha na cozinha enquanto comia pão com manteiga olhando para a geladeira.

Porque havia nisso tudo uma tristeza escondida que ninguém via.

Ela não queria ser inadequada.

Não queria falar absurdos.

Não queria rir em enterro, tropeçar em tapete, esquecer nomes, confundir palavras ou responder “igualmente” quando o garçom dizia “bom apetite”.

Mas a vida dentro dela parecia uma empresa pequena funcionando com funcionários cansados e um gerente completamente irresponsável.

Ainda assim, no meio do desastre, havia algo estranhamente bonito.

Porque Dona Josefa nunca machucava por maldade.

Suas tragédias vinham antes do filtro.

Ela era dessas pessoas que primeiro caem da escada emocional e depois perguntam onde era a porta.

E talvez por isso o mundo acabasse perdoando.

Na semana passada, por exemplo, ela derrubou o celular dentro da panela de feijão enquanto falava por vídeo com a irmã.

A imagem desapareceu num “ploft” dramático.

Silêncio.

Depois a irmã recebeu apenas uma mensagem de áudio:
— Acho que cozinhei meu WhatsApp.

Tico entrou em depressão.

Teco começou a beber imaginariamente.

E o Sabotador… ah, o Sabotador estava deitado numa rede dentro da cabeça dela, abanando-se com a própria carteira de trabalho, satisfeitíssimo, porque enquanto Dona Josefa existisse, o caos jamais ficaria desempregado.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

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