O Café que Esfriava por Nós Dois
Havia uma parte da casa que continuava esperando por ele.
Não era o quarto, nem a poltrona perto da janela, nem o lado vazio da cama onde
ela aprendera a dormir encolhida para não tocar o espaço que sobrara. Era algo
menos visível. Um tipo de silêncio que só existia porque um dia alguém respirou
ali durante muitos anos.
Lívia descobriu isso numa
manhã comum, enquanto colocava água para o café e separava duas xícaras sem
perceber.
Ficou olhando para elas
sobre a mesa como quem encara um erro impossível de corrigir. Não chorou. O
choro já não vinha com facilidade. A dor antiga, quando envelhece dentro da
gente, perde o escândalo. Aprende a andar pela casa devagar, quase sem barulho,
como alguém que conhece cada canto.
Lavou uma das xícaras e
abriu a janela.
Lá fora, a cidade seguia
acontecendo com uma crueldade distraída. Ônibus passavam. Pessoas discutiam ao
telefone. Um rapaz corria atrás do cachorro que escapara da guia. Uma mulher
equilibrava flores amarelas no braço como se ainda existisse tempo suficiente
para enfeitar mesas.
E existia.
Era isso que mais doía.
O mundo continuava
oferecendo manhãs.
Às vezes Lívia tentava
lembrar quando começara a perder Eduardo. Se fora no hospital, enquanto os
aparelhos falavam mais do que ele, ou antes, muito antes, naquele cansaço
silencioso que apareceu em seus olhos meses antes da despedida. Talvez as
pessoas nunca partam de uma vez. Talvez vão se afastando devagar, como barcos
empurrados por uma maré quase invisível.
O pior não era a morte.
Era continuar amando alguém
que já não podia voltar.
Porque o amor não
compreende ausências definitivas. O corpo entende os funerais antes do coração.
O coração continua atrasado dentro do luto, como alguém esperando numa estação
um trem que já encerrou o percurso.
Lívia ainda conversava com
ele em pensamento enquanto dobrava roupas, regava plantas ou esperava o sinal
abrir. Às vezes até sorria sozinha lembrando alguma implicância boba, e por um
instante o mundo parecia cometer o erro de devolvê-lo.
Depois vinha o vazio outra
vez.
Mas até o vazio muda de
forma com o tempo. No começo era um animal feroz. Depois virou uma presença
sentada ao lado dela no sofá, respirando junto, acompanhando seus passos pela
casa.
Numa tarde de chuva
encontrou, dentro de um livro antigo, um pedaço de papel dobrado.
Reconheceu a letra antes
mesmo de abrir.
“Como queres que te queira
menos, se até o tempo ao teu lado parecia pequeno?”
Sentou-se no chão da sala.
Ficou segurando o bilhete
enquanto a chuva descia pelos vidros como se o céu também tivesse perdido
alguém. Não sabia se ria da coincidência ou se odiava o destino por continuar
devolvendo Eduardo em pequenas armadilhas: numa música distante, num perfume
parecido, numa palavra dita por um desconhecido.
Amar alguém depois da
ausência era sobreviver cercada de aparições.
Ainda assim, havia contas
para pagar. Havia pão para comprar. Havia os netos crescendo depressa demais.
Havia roupas secando ao sol, farmácias, filas, comprimidos organizados em
caixas pequenas.
A vida não suspendia o
funcionamento porque alguém estava em ruínas.
Durante meses ela achou
isso ofensivo.
Até perceber que talvez
fosse justamente o contrário. Talvez a vida insistisse porque soubesse que
algumas pessoas não conseguiriam insistir sozinhas.
Numa manhã qualquer saiu
sem destino e entrou numa livraria perto da praça. Passou os dedos pelas
lombadas dos livros como quem procura uma passagem secreta para algum lugar
menos pesado.
Um homem perguntou se
precisava de ajuda.
Ela quase respondeu:
“preciso.”
Mas apenas sorriu.
Na volta para casa caminhou
devagar. Observou pessoas sentadas em cafés, casais discutindo baixo, uma
menina desenhando no vidro embaçado de uma confeitaria. Tudo parecia
absurdamente vivo.
Quando chegou, abriu as
janelas.
O vento atravessou a sala e
espalhou algumas folhas sobre a mesa. Dessa vez Lívia não correu para organizar
o que saíra do lugar. Ficou apenas olhando a cortina balançar, o fim da tarde
entrando aos poucos, a poeira antiga girando dourada dentro da luz.
Depois tirou do armário a
xícara que sempre fora dele.
Não para guardá-la outra
vez.
Colocou café até a metade,
sentou-se com ela entre as mãos e deixou que esfriasse lentamente, como certas
coisas que a gente não abandona, mas também já não tenta salvar.
Silvia Marchiori Buss
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