Nós e os "Outros"

Chamavam de os “outros” com uma naturalidade que não era crueldade, mas também não era cuidado. Era uma palavra que servia para separar, como uma porta entreaberta que nunca se fecha nem se escancara. Do lado de cá, nós — as cuidadoras, as mulheres de uniforme claro, os visitantes ocasionais que vinham mais por curiosidade do que por afeto. Do lado de lá, eles — os “outros” — habitantes de um tempo próprio, onde os dias não tinham as mesmas horas.

O lugar tinha cheiro de roupa fervida e sabão de soda. As janelas altas deixavam entrar uma luz filtrada, como se o mundo lá fora precisasse pedir licença antes de atravessar aqueles vidros. Nos corredores, passos ecoavam com um atraso leve, como se cada som demorasse um pouco mais para se decidir a existir.

As cuidadoras aprenderam cedo a linguagem do gesto: um toque leve no ombro, uma xícara colocada sempre no mesmo lugar, o cuidado de não corrigir o que não precisava ser corrigido. E, entre uma rotina e outra, havia dias em que os “outros” expunham suas artes.

Era um acontecimento silencioso, mas aguardado.

Sobre uma mesa comprida, surgiam desenhos de cores improváveis, bordados com linhas que não seguiam padrão, esculturas feitas de coisas que ninguém pensaria em guardar — obras extremamente íntimas, expressões cruas e histórias silenciosas. Não havia explicação para aquelas obras, e talvez por isso mesmo elas permanecessem — inteiras, sem a necessidade de serem compreendidas.

Nós passávamos por ali com um respeito que beirava o desconforto. Havia beleza, sim, mas uma beleza que não se deixava traduzir.

Foi num desses dias — ou talvez num intervalo entre eles — que Clarice chegou.

Chovia fino, persistente, como se o céu estivesse tentando apagar alguma coisa sem fazer barulho. Trouxeram-na no final da tarde, envolta num casaco escuro que parecia pesado demais para o corpo dela. Não chorava, não perguntava, não resistia. Apenas entrou.

Diziam que escolhera estar ali.

As cuidadoras trocaram olhares que não se completaram. Escolher não era uma palavra comum naquele lugar.

Nos primeiros dias, Clarice ocupou um quarto no fundo do corredor. Mantinha a janela aberta mesmo no frio, como se precisasse sentir o vento para confirmar que ainda havia algo fora dali. Sentava-se na cama com as mãos pousadas sobre o colo, imóvel por longos períodos, mas não havia vazio nela — havia uma espécie de concentração, como quem escuta algo muito distante.

Não demorou para que começasse a produzir.

No início, eram papéis dobrados, guardados sob o travesseiro. Depois vieram desenhos — traços finos, quase hesitantes, que aos poucos ganhavam densidade. Ela não usava muitas cores. Preferia o grafite, o carvão, o risco direto.

Quando suas obras foram colocadas entre as dos outros, algo mudou.

Não era maior, nem mais bonita. Mas havia nelas uma nitidez estranha, como se Clarice desenhasse não o que via, mas o que insistia em permanecer dentro dela, mesmo depois de tudo desaparecer. Casas sem portas, rostos incompletos, mãos que não se tocavam — e, ainda assim, nada parecia faltar.

Uma das cuidadoras, a mais jovem, passou a demorar-se diante daqueles desenhos.

— Por que você veio? — perguntou certa vez, quase sussurrando, como se a resposta pudesse se quebrar no intervalo.

Clarice levou um tempo antes de responder. Não olhou para ela.

— Porque aqui não preciso explicar muitas coisas.

A frase ficou no corredor por dias.

Havia algo na presença dela que reorganizava o espaço. Os “outros”, que antes pareciam dispersos em seus próprios mundos, começaram a se aproximar mais. Não para falar — raramente falavam —, mas para estar. Sentavam-se próximos, observavam seus movimentos, como se reconhecessem nela uma linguagem familiar.

E talvez reconhecessem.

Com o tempo, tornou-se difícil dizer quem era “nós” e quem eram os “outros”. As mulheres cuidadoras começaram a hesitar antes de usar a palavra. Às vezes, escapava. Às vezes, ficava presa na garganta.

Numa manhã de inverno, encontraram o quarto de Clarice vazio.

A janela aberta, como sempre. O casaco dobrado sobre a cadeira. Nenhum bilhete.

Sobre a cama, apenas um desenho.

Era simples: uma linha atravessando o papel, sem começo nem fim definido. De um lado, pequenas marcas irregulares; do outro, o espaço em branco.

O desenho foi colocado na mesa, junto às outras obras.

As cuidadoras passaram por ele mais de uma vez naquele dia. Diminuíam o passo, às vezes paravam, mas ninguém dizia nada. Não havia o que perguntar — e, ainda assim, algo nelas parecia esperar uma resposta.

Foi então que começaram a evitar a palavra.

Os “outros” já não saíam com a mesma facilidade. Ficava suspensa, como se precisasse ser escolhida com cuidado — ou abandonada.

E, sem combinar, sem perceber exatamente quando, as cuidadoras deixaram de saber de que lado estavam.

Entre nós
ou entre os “outros”.

Silvia Marchiori Buss

 

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