No Reflexo dos Espelhos

Os espelhos daquela casa antiga nunca devolviam exatamente a mesma imagem.

Talvez fosse por causa da prata gasta atrás do vidro, talvez pela umidade que subia das paredes nos invernos longos, ou talvez porque certas dores modificassem discretamente o jeito como o rosto repousa sobre os ossos. Havia dias em que Clara passava diante do espelho do corredor e se enxergava quase menina, com os cabelos ainda pesados de juventude e os olhos cheios daquela confiança absurda de quem acredita que o amor é um lugar aonde se chega e permanece. Em outros dias, bastava inclinar um pouco a cabeça para encontrar no reflexo uma mulher cansada, feita de silêncios acumulados e noites dormidas pela metade.

Ela nunca comentou isso com ninguém.

As pessoas têm medo de quem olha demais para dentro das coisas.

O primeiro espelho estava no hall da entrada. Alto, estreito, cercado por madeira escura já rachada nos cantos. Fora presente de casamento. Clara ainda lembrava do caminhão descarregando os móveis, do marido sorrindo enquanto dizia que aquela casa teria filhos correndo pelos corredores, música na cozinha e cheiro constante de café recém - passado. Durante muitos anos, teve mesmo.

Os filhos cresceram.
A música diminuiu.
O café passou a esfriar sozinho sobre a mesa.

E o marido... bem, certas pessoas vão embora antes mesmo de partir de fato.

Ela começou a perceber isso numa tarde comum, enquanto dobrava roupas. Ele entrou em casa, deixou as chaves no móvel e perguntou qualquer coisa sobre contas ou supermercado, mas o reflexo dele no espelho da sala pareceu atrasado. Como se a imagem tivesse hesitado em acompanhá-lo.

Clara levantou os olhos.

O homem já caminhava em direção ao quarto.
O reflexo permanecia parado.

Só por um segundo.

Mas ficou.

Ela não contou a ninguém porque até ela mesma desconfiou da própria cabeça. A vida já andava difícil demais para começar a inventar assombrações domésticas. Ainda assim, depois daquele dia, passou a evitar olhar diretamente para os espelhos quando estava sozinha.

Nem sempre conseguia.

Numa madrugada de chuva, levantou-se para beber água e encontrou sua própria imagem sentada no sofá da sala enquanto ela permanecia parada na cozinha. O reflexo tinha os braços cruzados e uma expressão serena, quase piedosa.

Clara deixou o copo cair.

O barulho ecoou pela casa inteira, mas quando voltou a olhar, havia apenas o espelho refletindo a sala vazia, os cacos espalhados e a luz amarelada da madrugada.

Dormiu pouco naquela noite.

Nos meses seguintes, os espelhos começaram a revelar pequenas verdades que o cotidiano escondia. O do banheiro mostrava o marido sentado na beirada da cama olhando o celular com um sorriso que ela já não recebia havia anos. O da cristaleira refletia o filho mais velho chorando escondido depois de fingir firmeza no enterro do avô. O espelho do elevador devolvia rostos cansados de desconhecidos que sorriam para o mundo como se felicidade fosse obrigação social.

Clara entendeu, lentamente, que os espelhos daquela casa não refletiam aparência.

Refletiam ausência.

Mostravam aquilo que as pessoas tentavam esconder até de si mesmas.

Passou então a evitá-los como quem evita abrir cartas antigas.

Cobriu alguns com lençóis.
Mudou móveis de lugar.
Acendeu luminárias em pontos estratégicos para que a luz não batesse diretamente no vidro.

Mas espelhos têm uma crueldade silenciosa:
esperam.

Numa tarde de agosto, enquanto limpava gavetas, encontrou uma fotografia antiga dela e do marido na praia. Os dois riam para a câmera com os cabelos bagunçados pelo vento. Clara ficou muito tempo observando aquela mulher da fotografia. Não por saudade da juventude, mas porque reconheceu nela algo que desaparecera sem que percebesse exatamente quando.

A capacidade de ser inteira.

Levantou-se devagar e caminhou até o espelho maior da casa.

Ficou parada diante dele.

Dessa vez, o reflexo não repetiu seus movimentos.

A mulher do espelho aproximou-se do vidro enquanto Clara permanecia imóvel do lado de cá. Era igual a ela, mas havia qualquer coisa diferente nos olhos. Não tristeza. Nem juventude.

Presença.

Como alguém que ainda habitasse completamente o próprio corpo.

Clara sentiu vontade de tocar o vidro, mas não tocou.

As duas permaneceram se olhando por um tempo impossível de medir. Então o reflexo ergueu lentamente a mão e apontou para trás dela.

Clara virou-se.

A casa continuava igual.
O corredor.
As portas fechadas.
A luz cansada do fim da tarde entrando pelas frestas.

Quando tornou a olhar para o espelho, estava sozinha outra vez.

Mas naquela noite, depois de muitos anos passados, ela abriu todas as janelas da casa antes de dormir. Retirou os lençóis que cobriam os espelhos e deixou que permanecessem expostos no escuro, respirando silenciosamente entre os móveis antigos, como se também aguardassem alguma coisa que ainda não tinha nome.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

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