Mundo Que se Desfaz
O mundo dela não começou a desaparecer de forma visível.
Nada caiu no chão com estrondo. Não houve diagnóstico acompanhado de música
triste, nem um instante exato capaz de ser apontado no calendário como o início
da ruína. O que aconteceu foi mais silencioso — e justamente por isso mais
cruel.
Primeiro vieram as pequenas
falhas.
Uma palavra esquecida no
meio da frase.
Uma panela no fogo.
O nome da vizinha
desaparecendo por segundos longos demais.
No início todos trataram
aquilo com delicadeza. A idade, diziam. O excesso de preocupação. O cansaço
acumulado. E ela própria ajudava a encobrir os buracos. Ria quando confundia
objetos. Inventava desculpas rápidas. Desenvolveu uma habilidade silenciosa para
mudar de assunto antes que percebessem que sua memória começava a falhar como
uma lâmpada antiga.
Mas havia momentos em que o
mundo se tornava estranho.
Não triste.
Estranho.
A disposição dos móveis
parecia levemente alterada, como se alguém entrasse na casa durante a madrugada
e movesse tudo poucos centímetros para o lado. Certos rostos conhecidos
demoravam a encaixar dentro da lembrança correta. Às vezes precisava olhar mais
de uma vez para a filha até conseguir unir aquele rosto ao nome que lhe
pertencia.
O pior não era esquecer.
Era perceber o esquecimento
acontecendo.
Porque enquanto ainda se
nota a perda, existe consciência suficiente para sofrer.
Os médicos falavam baixo
demais. Usavam palavras educadas para explicar uma crueldade. Diziam
“comprometimento cognitivo”, “processo progressivo”, “preservar autonomia
enquanto possível”. Como se trocar os nomes da tragédia diminuísse o tamanho
dela.
Ela saiu da consulta
observando as pessoas na rua com uma espécie de inveja brutal.
Uma mulher falava ao
celular e ria.
Dois adolescentes discutiam
perto da farmácia.
Um homem carregava flores
amarelas.
Todos caminhando sem
imaginar o privilégio absurdo que era reconhecer o próprio caminho de volta
para casa.
Depois vieram os
desaparecimentos pequenos.
A receita do bolo que fazia
havia trinta anos.
O nome do cachorro da
infância.
O motivo de abrir uma
gaveta.
O destino de uma frase
antes do fim dela.
A doença não destruía; ela
apagava.
Como água derramada sobre
tinta ainda fresca.
E talvez por isso doesse
tanto. Porque ainda restavam contornos suficientes para que ela entendesse o
que estava perdendo.
Numa terça-feira encontrou
um relógio antigo no fundo da lavanderia, escondido entre toalhas velhas e
caixas vazias.
Masculino. Pulseira escura.
Parado às quatro e dezessete.
Ficou segurando o objeto
por muito tempo.
Sabia que aquele relógio
pertencia a alguém importante. Sentia isso no corpo inteiro. Havia amor ali.
Saudade também. Só não conseguia alcançar a lembrança inteira. Era como tentar
atravessar uma porta que desaparecia toda vez que ela tocava a maçaneta.
Um riso distante.
Uma xícara sobre uma mesa.
Mãos masculinas fechando
botões da camisa.
Depois nada.
O vazio.
Ela sentou no chão frio da
lavanderia porque entendeu algo terrível naquele instante: as memórias não
estavam indo embora sozinhas. Levavam partes dela junto.
Cada lembrança perdida
arrancava também a mulher que havia vivido aquela lembrança.
E então a casa pareceu
enorme.
Grande demais para uma
pessoa começando a desaparecer dentro da própria cabeça.
Naquela noite não acendeu
as luzes da sala. Ficou diante da janela observando os apartamentos do outro
lado da rua — vidas acontecendo atrás de cortinas entreabertas, televisões
ligadas, pratos sendo lavados, gente cansada voltando do trabalho.
O mundo seguia inteiro para
os outros.
Dentro dela, porém, as
coisas começavam a soltar umas das outras lentamente, como costuras antigas
cedendo depois de muitos anos de uso.
O relógio permaneceu preso
ao pulso.
Quatro e dezessete.
Uma hora imóvel tentando
sobreviver ao apagamento.
Quase como ela.
Silvia Marchiori Buss
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