La Belle de Jour - A Bela do Dia
Ninguém ali parecia saber exatamente o que aquilo queria dizer, e talvez por isso repetiam. Soava bem na boca, escorria com uma elegância que não exigia explicação. Foi assim que passaram a chamá-la.
Ela chegou ao hotel numa
tarde que não se comprometia com nada — nem sol, nem chuva, apenas uma
claridade suspensa, como se o dia ainda estivesse decidindo se valia a pena
acontecer. Trouxe uma mala pequena demais para quem dizia não saber quanto
tempo ficaria. Não pediu ajuda. Também não explicou.
O recepcionista tentou
confirmar a reserva.
— Nome?
Ela hesitou o tempo de um
gesto que quase acontece.
— Pode deixar assim —
disse, apontando para o livro aberto sobre o balcão, como se o próprio papel
resolvesse.
E resolveu. Escreveram ali:
La belle de jour.
O quarto ficava no terceiro
andar, de frente para um pátio interno onde nada de fato acontecia, mas tudo
parecia estar prestes a acontecer. Havia uma cadeira junto à janela, dessas que
convidam o corpo a permanecer mesmo quando ele não quer. Foi ali que ela passou
a maior parte dos dias — sentada, às vezes com um livro fechado nas mãos, às
vezes com os olhos acompanhando o movimento repetido de uma cortina no
apartamento da frente.
Não ligava a televisão. Não
fazia ligações. Saía pouco. E, quando saía, voltava com a mesma expressão de
quem não encontrou o que não estava procurando.
Aos poucos, tornou-se
assunto.
A camareira dizia que ela
não desarrumava a cama. Nem para dormir.
— Como alguém dorme sem
deixar marcas? — perguntou uma vez, encostada no carrinho de limpeza, mais
curiosa do que intrigada.
O homem da manutenção
garantiu que, à noite, havia passos no quarto.
— Mas passos leves. Como se
não quisessem acordar ninguém — explicou, sem muita convicção.
E o recepcionista, que
anotara o nome inexistente, começou a duvidar da própria caligrafia.
Certa manhã, decidiram
bater à porta.
Não por urgência, mas por
uma necessidade vaga de confirmar presenças. O gerente foi pessoalmente, com um
cuidado que beirava o respeito. Tocou uma vez. Depois outra.
Nada.
A porta não estava
trancada.
Empurrou devagar, como se
esperasse encontrar alguém que não gostaria de ser encontrado.
O quarto estava intacto. A
mala fechada ao lado da cama. A cadeira levemente afastada da janela, como se
tivesse sido usada há pouco. Sobre a mesa, nenhum objeto pessoal. Nenhum rastro
evidente de permanência.
Apenas o livro.
Um caderno de capa simples,
desses que não prometem nada. Aberto na primeira página.
O gerente aproximou-se, não
sem certo receio de que o gesto tivesse consequências.
Leu.
Havia uma única frase,
escrita com uma letra firme, sem pressa, sem hesitação:
“Ficar também é uma forma
de partir.”
Ele fechou o caderno com
cuidado, como quem devolve um segredo ao lugar de onde não deveria ter saído.
Quando desceu, ninguém
perguntou nada. Ainda assim, todos souberam que algo havia sido confirmado —
não o quê, exatamente, mas o suficiente para que parassem de procurar
explicações.
O nome permaneceu no
registro por alguns dias, depois foi coberto por outros. Reservas novas,
chegadas comuns, histórias que não pediam atenção.
Mas, vez ou outra, alguém
no hotel ainda repete, sem motivo aparente:
— La belle de jour…
E não é exatamente uma
lembrança.
É mais como uma tentativa
de manter algo aberto.
Silvia Marchiori Buss
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