História de Um Casamento

 No início, eles não tinham propriamente um plano — tinham horários que coincidiam, um certo modo de olhar o mundo e a disposição de não fazer perguntas demais. Foi assim que começaram a dividir pequenas coisas: o caminho até o mercado, a escolha do vinho barato, o silêncio confortável depois do jantar.

O apartamento era modesto, mas havia uma janela que pegava o sol da tarde. Ela gostava de deixar as cortinas entreabertas, não por gosto de luz, mas pelo hábito de acompanhar o dia mudando de cor. Ele, mais prático, dizia que aquilo desbotava os móveis. Ainda assim, nunca as fechava completamente.

Com o tempo, foram acumulando objetos que não tinham grande valor, mas que ocupavam lugares precisos: uma tigela rachada que ninguém jogava fora, livros lidos pela metade, uma cadeira que rangia sempre no mesmo ponto. A vida deles se organizava nesses detalhes — não no que diziam, mas no que permanecia.

Houve uma fase em que riam muito. Não de coisas importantes, mas de distrações: um copo que escorregava da mão, uma palavra dita errado, o cachorro do vizinho que latia sempre na hora errada. Riam como quem ainda não sabe o peso que certas horas vão adquirir.

Depois vieram os dias mais longos.

Nada de grave, nada que se pudesse nomear com facilidade. Apenas um leve desencontro nos horários, um cansaço que não se explicava, conversas interrompidas antes de chegar a algum lugar. Ele passou a ler mais no sofá, ela a se demorar na cozinha, mesmo quando não havia o que fazer.

Às vezes, ela o observava sem que ele percebesse — o modo como ele segurava o jornal, a forma como passava a mão pelos cabelos já um pouco ralos. Não era falta de amor, nem excesso. Era outra coisa, mais difícil de dizer: um reconhecimento distante, como se olhasse alguém que conheceu bem, mas cuja intimidade já não se oferece com a mesma facilidade.

Ele, por sua vez, notava mudanças menores: a maneira como ela guardava as louças com mais cuidado do que antes, como evitava certos assuntos, como passava mais tempo diante da janela, agora não para ver a luz, mas para não olhar diretamente para dentro da casa.

Houve tentativas discretas de retomada. Um jantar fora, um comentário mais leve, um toque no braço que demorava um segundo a mais do que o habitual. Mas tudo voltava ao lugar anterior, como móveis que já têm marca no chão.

Com os anos, aprenderam a conviver com isso sem nomear. Dividiam o espaço com uma espécie de acordo silencioso: não exigir do outro o que já não vinha espontaneamente. E, ainda assim, havia gestos que resistiam — o café preparado antes do outro acordar, a lembrança de comprar algo que o outro gostava, o cuidado em não fazer barulho à noite.

Ninguém de fora diria que havia algo faltando. A casa permanecia arrumada, as contas pagas, as visitas bem recebidas. Era um casamento que funcionava, no sentido mais visível da palavra.

Mas, em certos fins de tarde, quando a luz atravessava a sala e tocava os objetos como se quisesse devolvê-los ao que foram um dia, algo se movia ali — não exatamente uma saudade, nem arrependimento. Um espaço.

Ela continuava junto da janela. Ele, no sofá.

Entre os dois, havia tudo o que viveram — e o que, em algum ponto, deixou de se dizer.

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Silvia Marchiori Buss

 

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