Bolha de Sabão

Havia alguma coisa de teimoso naquela mulher que continuava voltando ao mesmo banco da praça, sempre no fim da tarde, quando o sol já começava a desistir devagar das fachadas antigas e os pombos caminhavam como velhos donos do mundo. Sentava-se com cuidado, ajeitando a saia sobre os joelhos, e carregava na bolsa um pequeno frasco de plástico azul, desses baratos, comprados em lojas de brinquedo.

As crianças já a conheciam.

— A senhora das bolhas.

Ela sorria sem mostrar todos os dentes. Depois mergulhava a haste no líquido e soprava devagar, enchendo o ar de bolhas de sabão que subiam tortas, frágeis, coloridas por um arco-íris que só existia por segundos.

Algumas explodiam imediatamente.

Outras viajavam mais longe, atravessando pedaços de luz, ombros distraídos, bicicletas, cachorros, pensamentos.

E ela observava cada uma como quem acompanha destinos.

Ninguém sabia exatamente por que fazia aquilo todos os dias. Havia quem dissesse que perdera um filho. Outros juravam que o marido morrera ali perto, décadas antes. Uma mulher da floricultura comentou certa vez que ela provavelmente estava ficando senil, porque pessoas normais não voltam ao mesmo lugar para soprar bolhas sozinhas.

Mas a verdade nunca caminhava pela praça junto com os comentários.

Numa quarta-feira de vento frio, um menino sentou-se ao lado dela. Devia ter uns nove anos e carregava no rosto aquele silêncio pesado que algumas crianças aprendem cedo demais.

Ela soprou uma bolha enorme.

O menino acompanhou o voo até ela desaparecer perto das árvores.

— Minha mãe odiava isso — ele disse.

A mulher não respondeu imediatamente. Apenas mergulhou a haste outra vez.

— Bolhas?

— Coisas que somem.

A resposta ficou entre eles como uma folha caída.

Ela soprou outra bolha, menor dessa vez.

— E você? — perguntou. — Não gosta também?

O menino pensou antes de responder.

— Acho que sim.

Ela concordou como se entendesse perfeitamente.

Durante muitos dias ele voltou. Sentava-se ao lado dela sem pedir licença. Às vezes falavam. Às vezes não. Em certos fins de tarde apenas observavam as bolhas atravessarem o parque como pequenas luas cansadas.

Até que numa tarde de chuva leve, o menino perguntou:

— Por que a senhora faz isso?

A mulher demorou para responder. Olhou ao redor como quem procura uma porta antiga escondida no tempo.

— Porque descobri tarde demais que quase tudo é bolha de sabão.

O menino franziu a testa.

Ela continuou:

— Casamentos. Promessas. Juventude. Raiva. Beleza. Algumas felicidades também. A gente passa a vida tentando segurar coisas que nasceram para estourar.

O garoto baixou os olhos para os tênis molhados.

— Então nada fica?

Ela sorriu de leve, cansada, mas sem tristeza.

— Fica o instante antes de desaparecer.

O menino não respondeu.

Naquele dia, antes de ir embora, ela entregou o pequeno frasco azul nas mãos dele.

E não voltou mais.

Nos primeiros dias, as pessoas acharam estranho o banco vazio. Depois esqueceram, como se esquecem tantas coisas.

Mas o menino continuou aparecendo no fim das tardes.

Mais alto com o passar dos anos.

Às vezes sozinho.

Às vezes acompanhado.

Sempre carregando um pequeno frasco azul no bolso do casaco.

E em certos fins de tarde, quando o vento atravessava a praça exatamente como antigamente, era possível ver dezenas de bolhas subindo pelo céu da cidade, frágeis e luminosas, enquanto ele observava cada uma delas como quem ainda tenta compreender por que algumas desaparecem cedo demais… e outras continuam dentro da gente mesmo depois de estourarem.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

 

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