A Mulher Que Foi Conversar com as Nuvens
Durante semanas, ela passou a subir o morro no fim da tarde carregando uma cadeira de madeira que rangia como joelhos antigos. Não era um morro bonito desses de cartão-postal. Tinha pedras tortas, mato seco em alguns trechos e um silêncio interrompido apenas pelos cachorros distantes e pelas roupas batendo nos varais lá embaixo. Ainda assim, era ali que o céu parecia mais próximo da pele.
As pessoas começaram a
comentar.
Diziam que a mulher estava
perdendo o juízo.
Outros achavam que era
luto.
Havia quem dissesse que ela
esperava alguém.
Mas ninguém perguntou
diretamente, porque certas tristezas obrigam até os curiosos a falar baixo.
Ela subia sempre no mesmo
horário. Sentava-se na cadeira virada para o horizonte e ficava olhando as
nuvens como quem tenta reconhecer rostos numa multidão antiga. Às vezes movia
os lábios discretamente. Às vezes ria sozinha. Noutras, apenas apertava as mãos
no colo, como se segurasse alguma coisa invisível para que não escapasse.
As crianças do bairro
passaram a chamá-la de “a mulher do céu”.
E talvez fosse mesmo.
Porque havia pessoas feitas
para a terra — para boletos, relógios, compras de mercado, receitas anotadas na
porta da geladeira — e havia outras que, mesmo caminhando entre móveis e
panelas, pareciam pertencer a algum lugar suspenso.
Ela era uma dessas.
Numa quarta-feira muito
quente, o vento chegou antes da chuva. O bairro inteiro começou a recolher
roupas dos varais e fechar janelas. Ela, ao contrário, subiu o morro mais cedo,
levando a cadeira debaixo do braço e o vestido já dançando nas pernas.
Sentou-se.
O céu estava pesado, escuro
nas bordas, como um pensamento prestes a desabar.
Foi então que começou a
falar mais alto.
Não como quem reza.
Nem como quem enlouquece.
Falava como alguém cansado
de conversar apenas consigo mesma.
Perguntou às nuvens onde
guardavam as coisas que desapareciam sem morrer de verdade.
Perguntou para onde iam as
vozes depois que as casas ficavam vazias.
Perguntou por que certas
pessoas partiam deixando os objetos para trás, como se o corpo tivesse ido
embora correndo e a alma não tivesse tido tempo de arrumar as gavetas.
O vento aumentou.
As árvores começaram a se
dobrar lentamente, feito gente ouvindo notícia ruim.
Ela continuou.
Disse que estava cansada de
procurar respostas nos armários, nas fotografias, nas roupas esquecidas atrás
da porta. Disse que os espelhos estavam ficando cruéis porque devolviam apenas
o rosto dela, nunca o que havia existido ao redor. Confessou que às vezes abria
duas xícaras sobre a mesa por puro descontrole da memória.
A primeira gota caiu bem no
meio de sua mão aberta.
Ela olhou para cima.
As nuvens pareciam enormes
animais cinzentos atravessando o mundo sem endereço fixo. Havia nelas alguma
coisa de velho navio, de fumaça, de lençol sacudido depois de um sonho ruim.
Então a mulher fez a
pergunta que carregava há meses presa entre os dentes:
— O amor acaba ou apenas
muda de lugar?
A chuva veio inteira.
Pesada.
Grossa.
Mas ela não desceu.
Ficou ali, molhando os
cabelos, os ombros, a cadeira antiga, como se estivesse finalmente sendo
escutada por alguma coisa maior que a própria solidão.
Lá embaixo, atrás das
janelas embaçadas, algumas pessoas observavam a cena sem entender por que
aquela imagem lhes dava vontade de chorar.
E talvez fosse porque
todos, em algum momento da vida, acabam querendo fazer o mesmo.
Subir até um lugar alto.
Olhar para o céu.
E perguntar às nuvens onde
foram parar as partes de nós que o tempo levou sem dar explicação.
Silvia Marchiori Buss
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