A Luz Que Ficou Acesa

Havia dias em que a saudade chegava sem fazer barulho, como quem conhece tão bem a casa que já não precisa bater à porta. Entrava pelos corredores da tarde, sentava-se na cadeira vazia da cozinha, mexia nas cortinas com um vento leve e ficava ali, espalhada entre os objetos que continuavam existindo apesar da ausência.

Ela às vezes pensava em escrever. Não cartas longas, nem despedidas atrasadas — apenas uma frase pequena, quase tímida: queria muito falar contigo mais uma vez, saber de ti, do teu dia a dia, se realmente estás brincando de viver. Mas não escrevia. Deixava as palavras descansando dentro dela como roupas dobradas que ninguém usa, embora ainda guardem perfume.

A vida ao redor insistia em continuar com uma certa falta de delicadeza. O pão precisava ser comprado, as plantas pediam água, os lençóis secavam ao sol como bandeiras brancas penduradas nas varandas dos outros. As pessoas falavam de trânsito, de previsão do tempo, de séries novas, enquanto ela carregava no peito a sensação absurda de que alguém importante tinha saído apenas para caminhar e ainda não havia voltado.

À noite, sentava-se perto da janela. Não por tristeza exatamente, mas porque algumas ausências parecem gostar de vidro e silêncio. Observava as luzes dos apartamentos acendendo uma a uma e imaginava pequenos fragmentos da vida dele em algum lugar do mundo. Talvez estivesse ouvindo música baixa enquanto preparava café. Talvez tivesse aprendido a dormir mais cedo. Talvez ainda deixasse um copo esquecido ao lado da cama. Havia ternura até nas hipóteses.

Em certos momentos, quase conseguia ouvi-lo falando qualquer coisa banal, dessas sem importância nenhuma, e era justamente isso que doía. A saudade raramente sente falta dos grandes acontecimentos. Ela prefere os detalhes pequenos: o jeito de apoiar a mão na mesa, a pausa antes da resposta, a risada surgindo antes da frase terminar.

Num domingo de chuva fina, abriu uma gaveta procurando pilhas e encontrou um guardanapo antigo com uma frase escrita às pressas. Não havia data. Apenas duas letras tortas e um desenho malfeito de coração que certamente tinham nascido numa mesa de café qualquer. Ficou olhando aquilo durante muito tempo, como se o papel pudesse responder perguntas que nunca foram feitas.

Depois guardou de novo.

Nem tudo precisa ser resolvido para continuar existindo.

Mais tarde, quando a madrugada já caminhava devagar pelos telhados, ela deixou a luz da sala acesa sem motivo. Talvez para ninguém. Talvez para a memória encontrar caminho de volta. Talvez porque ainda existisse dentro dela a estranha esperança de que certas pessoas, mesmo distantes, às vezes sintam quando alguém continua pensando nelas em silêncio.

Silvia Marchiori Buss

 

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