A Lente Entre o Mundo e Eu

 Havia sempre algo entre ela e o que via. Não era exatamente um obstáculo, nem proteção — era uma lente. Invisível aos outros, presente demais para que ela pudesse esquecer.

No início, pensou que fosse apenas distração. Um jeito próprio de olhar. Mas, com o tempo, percebeu: o mundo chegava até ela já alterado, ligeiramente deslocado do lugar onde todos pareciam encontrá-lo.

As cores, por exemplo, nunca eram inteiras. O azul do céu vinha com um cansaço quase imperceptível. O verde das árvores carregava uma sombra que não vinha da luz, mas de dentro. Nada era falso — apenas não era exatamente o que diziam que era.

As pessoas também atravessavam essa lente.

Um sorriso, quando chegava até ela, já vinha com o eco do que não foi dito. Um gesto simples carregava camadas que ninguém parecia notar. Às vezes, ela invejava a leveza dos outros — a forma como aceitavam o mundo na superfície, sem a necessidade de tocar o fundo de tudo.

Mas havia dias em que a lente se tornava mais densa.

Nesses dias, o tempo parecia engrossar. As ruas se alongavam além do necessário. As vozes ficavam um pouco distantes, como se viessem de dentro de um vidro antigo. Ela caminhava entre as pessoas com a sensação de que, mesmo presente, não participava completamente.

Tentou, por um tempo, limpar essa lente.

Mudou caminhos, alterou rotinas, evitou lugares que pareciam reforçar a distorção. Chegou a acreditar que, se insistisse o suficiente, o mundo se apresentaria cru, direto, sem esse filtro silencioso entre ela e as coisas.

Mas não aconteceu.

A lente não era algo que se removia. Não estava sobre os olhos. Estava no modo como eles aprendiam a ver.

E então, quase sem perceber, ela deixou de lutar contra isso.

Passou a observar com mais cuidado aquilo que só ela parecia alcançar. Pequenos desalinhamentos que revelavam outras verdades. A pausa antes de uma resposta. O peso escondido em palavras leves. O instante em que alguém olhava para longe — e ali, por um segundo, deixava escapar quem realmente era.

Não era uma visão mais bonita.

Mas também não era menos verdadeira.

Com o tempo, ela entendeu que sua lente não distorcia o mundo por inteiro. Apenas recusava a versão simplificada dele. Onde os outros viam linha reta, ela via curvas. Onde diziam fim, ela percebia continuidade.

E, ainda assim, havia momentos em que ela desejava descanso.

Sentar-se diante de uma paisagem e vê-la apenas como paisagem. Ouvir uma palavra e não precisar escutá-la além do som. Tocar as coisas sem que elas devolvessem camadas.

Esses momentos vinham, raros e breves.

E quando vinham, ela quase não os reconhecia.

Porque, no fundo, já não sabia mais se aquilo era ausência da lente — ou apenas outra forma dela existir.

Ela continuou vivendo assim: entre o que era visto e o que se revelava depois.

Sem corrigir. Sem traduzir.

Apenas sustentando essa distância mínima — e constante — entre o mundo e o que, de fato, chegava até ela.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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