Sabrina

Sabrina aprendeu cedo a atravessar os dias como quem atravessa um rio que nem sempre se mostra por inteiro, porque havia trechos em que o fundo aparecia com clareza e outros em que a água escurecia sem aviso, exigindo mais do corpo do que ela imaginava ter, e talvez por isso tenha crescido com esse hábito silencioso de olhar primeiro para dentro antes de dar qualquer passo.

Morava numa casa de paredes claras, dessas que guardam o calor do sol até o início da noite, e tinha uma janela voltada para uma rua tranquila, onde as tardes se alongavam entre passos lentos e vozes baixas, e era ali que costumava ficar, apoiando os braços no parapeito, observando o movimento pequeno do mundo como quem tenta reconhecer alguma coisa que não se explica, mas insiste.

Havia dias em que Sabrina parecia caber perfeitamente dentro de si, como se cada pensamento encontrasse o seu lugar e cada silêncio fosse apenas um intervalo natural entre uma respiração e outra, e havia dias em que tudo se deslocava de leve, como se sua presença escorresse pelas bordas do que era, deixando um vazio discreto, desses que não chegam a ferir, mas também não se ignoram.

Ela escrevia.

Não como quem deseja guardar o mundo, mas como quem tenta alcançar aquilo que não se deixa dizer de outro modo, e sua letra, um pouco inclinada, carregava pausas que pareciam pensar antes de continuar, palavras que surgiam devagar, ocupando o papel sem urgência, como se soubessem que não havia necessidade de chegar a lugar algum.

Numa dessas tardes em que o vento atravessava a rua sem levar nada além de uma leve mudança no ar, Sabrina escreveu sobre um lugar que não conhecia, um campo aberto onde o céu parecia mais próximo do que o habitual, e onde alguém caminhava sem destino, apenas sentindo o chão sob os pés, como se cada passo bastasse.

Enquanto escrevia, teve a impressão de que aquele lugar não era invenção.

Dias depois, ao atravessar a cidade por um caminho que não costumava fazer, encontrou um terreno amplo, silencioso, com uma luz que se espalhava de um jeito muito parecido com o que havia descrito, e por um instante ficou parada, não por surpresa, mas por uma espécie de reconhecimento que não pedia explicação.

Não contou a ninguém.

Guardou o acontecimento como se guarda algo que não se quer traduzir, porque havia ali uma delicadeza que talvez se perdesse se fosse dita em voz alta.

Continuou vivendo entre a janela, os cadernos e os dias que se alternavam sem anunciar mudanças, mas havia pequenos desvios, quase imperceptíveis, como se alguma coisa tivesse se ajustado por dentro sem pedir autorização.

Em algumas noites, quando a casa já havia se recolhido ao seu próprio silêncio e a rua diminuía até caber inteira dentro da escuridão, Sabrina permanecia acordada, a caneta entre os dedos, sem pressa.

O papel em branco diante dela.

E uma sensação discreta de que nem tudo precisava ser escrito para existir.

 

Silvia Marchiori Buss

 

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