Quarto 317

O hotel não tinha nada de memorável à primeira vista. Carpete neutro, luz amarelada nos corredores, um silêncio que parecia treinado. Era o tipo de lugar onde as pessoas chegam com malas pequenas e histórias grandes demais para carregar à mostra.

Ela chegou primeiro.

Não por ansiedade — ainda que houvesse — mas por hábito. Gostava de chegar antes, observar o espaço, escolher o lado da cama mesmo quando a cama não lhe pertencia. Deixou a bolsa sobre a poltrona, abriu a janela apenas o suficiente para sentir o ar da rua e depois fechou de novo, como quem testa a possibilidade de ir embora antes mesmo de ficar.

Ele atrasou dezessete minutos.

O suficiente para que ela pensasse em sair duas vezes e desistisse nas duas. Quando a porta finalmente se abriu, não houve surpresa — apenas um reconhecimento silencioso, como se ambos soubessem que aquele encontro não começava ali.

— Você veio — ele disse, baixo, sem entusiasmo ensaiado.

Ela sorriu de um jeito quase lateral, sem pressa de responder.

Vieram.

Sentaram-se lado a lado na beirada da cama, como se o espaço fosse emprestado demais para qualquer gesto maior. Falaram primeiro de coisas pequenas — o caminho, o clima, o café ruim da recepção — até que o silêncio começou a ocupar mais espaço que as palavras.

Foi ele quem encostou a mão primeiro.

Não foi um gesto decidido, mas uma aproximação lenta, como quem pede licença sem dizer. Ela não recuou. Também não avançou. Apenas deixou que o toque acontecesse, com uma naturalidade que não vinha do momento, mas de algum lugar anterior a ele.

A tarde escorreu sem marcação clara.

Entre uma conversa interrompida e outra que não chegou a começar, o quarto foi se tornando menos estranho. Os objetos perderam a função inicial — a cadeira deixou de ser só cadeira, a cortina deixou de separar o dentro e o fora. Havia uma suspensão ali, como se o tempo tivesse sido colocado em pausa, mas sem aviso.

Quando se aproximaram de verdade, não houve urgência.

Era mais uma tentativa de confirmar algo do que de descobrir. As mãos sabiam onde ir, mas hesitavam no caminho, como se cada gesto carregasse a dúvida do que poderia vir depois. Não disseram nada. Não precisavam.

Lá fora, a noite chegou sem aviso.

As luzes da rua desenhavam sombras irregulares no teto, e por um instante ela ficou olhando aquilo — os contornos, as mudanças quase imperceptíveis — como se procurasse uma resposta que não estava no quarto.

— A gente devia ter se encontrado antes — ele disse, já deitado, com a voz mais distante do que o corpo.

Ela demorou a responder.

— Talvez — disse, sem convicção.

Porque havia algo naquele “antes” que não existia. Como se o encontro só fosse possível naquele exato ponto em que estavam — nem um dia antes, nem um dia depois.

Dormiram pouco.

Entre um despertar e outro, havia sempre a sensação de que algo estava prestes a ser dito, mas nunca era. O corpo encontrava o outro com facilidade. As palavras, não.

De manhã, o quarto parecia menor.

A luz invadia sem delicadeza, revelando detalhes que a noite tinha suavizado — a mala aberta, a roupa no chão, os copos pela metade. Ele levantou primeiro, foi até a janela e ficou ali, olhando sem ver muito.

Ela o observou em silêncio.

Havia um tipo de distância ali que não estava ligada ao espaço.

— Você vai ficar mais um dia? — ele perguntou, ainda de costas.

Ela pensou na pergunta como quem segura algo frágil.

— Não sei.

E não sabia mesmo. Porque ficar significava atravessar o que ainda não tinha nome. E ir embora, de algum modo, preservava aquilo que talvez só existisse ali, naquele quarto, naquela medida exata de tempo.

Arrumaram as coisas devagar.

Sem pressa, mas também sem intenção de prolongar. Cada objeto voltando ao seu lugar original, como se desmontassem não apenas a presença, mas tudo o que tinha se formado entre eles.

Na porta, hesitaram.

Não porque faltavam gestos, mas por excesso de possibilidades. Um abraço poderia ser demais. Um beijo, insuficiente. Um aceno, quase uma negação.

Ele abriu a porta.

Ela saiu primeiro.

Caminhou pelo corredor sem olhar para trás, contando os passos sem perceber. O elevador demorou mais do que deveria — ou talvez tenha sido só a espera que se alongou.

Quando as portas se fecharam, o reflexo devolveu uma imagem que não era exatamente a mesma de quando chegou.

No quarto 317, ele permaneceu por alguns minutos.

Sentado na beirada da cama, como no início, tentando reconhecer o que, de fato, tinha acontecido ali.

Mas o quarto já começava a voltar ao que sempre foi.

E, aos poucos, parecia que nada tinha acontecido — exceto por algo difícil de nomear, que não cabia na mala de nenhum dos dois.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

 

 

 

 

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