O Silêncio da Professora
Todos os dias, às sete e vinte da manhã, ela cruzava a praça com o passo firme de quem sabe para onde vai – ou, ao menos, aprendeu a parecer que sabe. Era uma mulher de seus sessenta e poucos anos, professora titular de literatura comparada, conhecida por sua inteligência cortante, sua oratória impecável e sua ausência de gestos supérfluos.
Nunca fora vista chorando. Nem rindo demais. Vestia-se com elegância discreta, como quem teme ser interpretada. Seu rosto parecia talhado por décadas de contenção: não revelava felicidades, tampouco cansaços.
Na extremidade da praça, entre uma árvore torta e um relógio de rua que parara anos atrás, morava um velho. Não mendigava. Apenas estava. Um corpo magro envolto por mantas gastas, barba feita de outonos, olhar feito de séculos.
Todos os dias, quando ela passava, ele dizia:
– Bom dia, doutora.
E todos os dias, ela não respondia. Nem mesmo desviava os olhos. Como se aquela voz pertencesse ao vento.
Até que, numa manhã que não prometia nada – nem chuva, nem sol – ela parou.
Foi um gesto tão simples que quase não se percebeu: ela virou o rosto. Pela primeira vez.
E então, como quem cansa de manter o mundo inteiro sobre os ombros, sentou-se ao lado dele. Com as mãos cruzadas no colo, encarou o chão.
O velho não disse nada. Nem ela. Até que:
– Sabe o que é pior do que perder alguém? – ela perguntou, sem olhá-lo.
Ele permaneceu em silêncio. Era sua maneira de escutar.
– É não saber o que fazer com tudo o que sobra. Os livros que ele não leu? Os planos que ele não realizou? Os silêncios que nunca se explicaram? Fico me perguntando... será que existe um lugar onde o que fomos continua existindo, mesmo depois da ausência?
O velho coçou o queixo. Respirou fundo. Esperou.
Ela prosseguiu:
– Todos me acham forte. Admiro quem acredita nisso. Já não lembro quando me permiti fraquejar sem culpa. Nem sei se quero lembrar.
O vento atravessou a praça devagar. Um cachorro latiu ao longe. Ela suspirou, como quem tira sapatos invisíveis depois de um dia longo demais.
– Nunca lhe perguntei o nome. Nem o que faz aqui. Mas hoje, estranho senhor... só hoje, pareceu que esse banco era o único lugar do mundo onde eu cabia.
Ele então falou, sem pressa:
– Não é todo dia que o mundo oferece um banco para se sentar. Nem um ouvido que não precisa entender para acolher.
Ela sorriu – não com os lábios, mas com os ombros, que finalmente deixaram de pesar. Levantou-se sem se despedir. Não havia necessidade.
Na manhã seguinte, passou pela praça. E parou. Não para falar – não ainda – mas para olhar o velho nos olhos e cumprimentar com a cabeça.
Era o começo de um outro tempo. Um em que as palavras voltariam aos poucos, como quem aprende a falar de novo com alguém que não quer respostas – só verdade.
Nunca fora vista chorando. Nem rindo demais. Vestia-se com elegância discreta, como quem teme ser interpretada. Seu rosto parecia talhado por décadas de contenção: não revelava felicidades, tampouco cansaços.
Na extremidade da praça, entre uma árvore torta e um relógio de rua que parara anos atrás, morava um velho. Não mendigava. Apenas estava. Um corpo magro envolto por mantas gastas, barba feita de outonos, olhar feito de séculos.
Todos os dias, quando ela passava, ele dizia:
– Bom dia, doutora.
E todos os dias, ela não respondia. Nem mesmo desviava os olhos. Como se aquela voz pertencesse ao vento.
Até que, numa manhã que não prometia nada – nem chuva, nem sol – ela parou.
Foi um gesto tão simples que quase não se percebeu: ela virou o rosto. Pela primeira vez.
E então, como quem cansa de manter o mundo inteiro sobre os ombros, sentou-se ao lado dele. Com as mãos cruzadas no colo, encarou o chão.
O velho não disse nada. Nem ela. Até que:
– Sabe o que é pior do que perder alguém? – ela perguntou, sem olhá-lo.
Ele permaneceu em silêncio. Era sua maneira de escutar.
– É não saber o que fazer com tudo o que sobra. Os livros que ele não leu? Os planos que ele não realizou? Os silêncios que nunca se explicaram? Fico me perguntando... será que existe um lugar onde o que fomos continua existindo, mesmo depois da ausência?
O velho coçou o queixo. Respirou fundo. Esperou.
Ela prosseguiu:
– Todos me acham forte. Admiro quem acredita nisso. Já não lembro quando me permiti fraquejar sem culpa. Nem sei se quero lembrar.
O vento atravessou a praça devagar. Um cachorro latiu ao longe. Ela suspirou, como quem tira sapatos invisíveis depois de um dia longo demais.
– Nunca lhe perguntei o nome. Nem o que faz aqui. Mas hoje, estranho senhor... só hoje, pareceu que esse banco era o único lugar do mundo onde eu cabia.
Ele então falou, sem pressa:
– Não é todo dia que o mundo oferece um banco para se sentar. Nem um ouvido que não precisa entender para acolher.
Ela sorriu – não com os lábios, mas com os ombros, que finalmente deixaram de pesar. Levantou-se sem se despedir. Não havia necessidade.
Na manhã seguinte, passou pela praça. E parou. Não para falar – não ainda – mas para olhar o velho nos olhos e cumprimentar com a cabeça.
Era o começo de um outro tempo. Um em que as palavras voltariam aos poucos, como quem aprende a falar de novo com alguém que não quer respostas – só verdade.

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