Navegando na Ausência

Tempos atrás, a casa do lago era um corpo em festa. Respirava por suas janelas abertas, pulsava nas tábuas rangentes, estremecia com as gargalhadas que vinham em ondas — pequenas, médias, avassaladoras. As crianças varriam os cômodos com seus pés descalços, deixando no chão marcas invisíveis que, mesmo após tantos anos, ainda parecem estar ali, à espera de um olhar mais lento.

As histórias não se contavam — se saboreavam. Com o pão quente da manhã, com o som do rádio velho no domingo, com os pés encharcados voltando do lago, misturados à lama e à alegria. Tudo era excesso: de gente, de fala, de cheiro de bolo, de expectativa por um próximo verão.
Mas houve também aquela fase lenta, em que o movimento continuava... porém já murcho. Como fruta madura demais que ainda está na árvore, mas cujo perfume anuncia a proximidade da queda. Os corpos permaneciam — os avós, os tios, alguns filhos adultos — mas já mais sentados do que dançantes, mais observadores do que protagonistas.
Eram presenças viúvas. Viúvas de suas próprias épocas, dos que haviam partido, dos papéis que já não exerciam. Ainda estavam lá, mas com um certo cansaço nos olhos. A toalha da mesa seguia sendo estendida, o café seguia sendo passado, mas os brindes rareavam. As risadas vinham, mas não aos montes — eram menos frequentes, como se pedissem licença para existir. A casa começou a aprender a ouvir o que não era dito.
As crianças — aquelas que antes varriam os cômodos com vida — agora vinham apenas de passagem. Crescidas, traziam pressa na bagagem. Um final de semana por ano. Uma visita breve no Natal. Beijos dados no ar e promessas feitas com afeto, mas sem data para se cumprir.
E então, devagar, sem escândalo, o silêncio começou a ocupar os lugares com a dignidade de um herdeiro inevitável. Um herdeiro manso, mas inegociável. As almofadas foram ficando fofas demais. As janelas, mais fechadas. A luz da tarde já não cruzava rostos — apenas móveis.
Hoje, quem ficou atravessa a casa como se cruzasse um rio sem margem visível. Não é tristeza o que habita ali — é outra coisa. Uma memória que aprendeu a respirar por conta própria. O som dos talheres, o ranger da cadeira, o cheiro do fogão aceso... tudo parece repetir rituais que perderam seu grupo, mas não sua fé.
É assim que se navega na ausência: sem bússola, mas com memória. Sem plateia, mas com reverência. Porque, mesmo sem ninguém à mesa, o perfume do pão ainda acorda um sorriso. Mesmo sem risos ao redor, uma gargalhada pode ecoar de repente — vinda de algum ponto da casa onde o tempo insiste em se curvar.
Na beira do lago, a água continua a se mover. Reflete o céu como sempre fez, sem saber quantos já se foram, sem contar quem ficou. A casa também continua sendo. Ela vive — menos cheia, mais funda.
Porque algumas casas, como certas mulheres, tornaram-se viúvas do tempo. Perderam a algazarra, o cheiro do almoço aos domingos, os chinelos espalhados pela varanda. Mas não perderam tudo. Guardam, nos cantos, nas frestas, nas dobras das cortinas, as lembranças que não se deixam apagar. Lembranças que não choram alto, mas sussurram — e, ao sussurrar, mantêm vivos os nomes, os rostos, os instantes que, embora ausentes, ainda se sentam à mesa da memória.
E assim, feito viúva antiga que penteia os cabelos diante do espelho, mesmo sem mais esperar visita, a casa segue. Com dignidade, com silêncio, com uma saudade que não pede consolo — apenas presença.
Porque navegar na ausência é isso: continuar, mesmo depois do fim.




Silvia Marchiori Buss

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