O Que o Vento Leva, o Inverno Reclama

Mudaram primeiro as coisas pequenas — o jeito de fechar a porta, a maneira de dobrar uma blusa, o silêncio entre uma palavra e outra. Não foi um anúncio, nem uma ruptura clara. Foi um deslocamento lento, quase elegante.

Ela percebeu antes do nome, antes da explicação.

Havia um pedaço novo nela — mais firme, talvez, mais decidido. Um pedaço que não aceitava mais certas esperas, certos atrasos, certas meias-presenças. Esse pedaço cresceu como quem encontra luz depois de muito tempo à sombra. E, junto dele, outros foram ficando para trás sem alarde. Não houve despedida. Só ausência.

Era isso que a inquietava.

Porque mudar não era só encontrar — era também perder sem saber exatamente o quê.

Ele, por sua vez, não sabia dizer quando começou a não reconhecê-la completamente. Continuava sendo ela — o mesmo rosto, o mesmo modo de apoiar o queixo na mão quando pensava. Mas havia intervalos. Pequenos vazios onde antes existia continuidade.

E esses vazios, ninguém sabia atravessar.

O vento chegou numa tarde indecisa. Não era frio o bastante para ser inverno, nem leve o suficiente para anunciar verão. Entrou pelas frestas, bagunçou papéis, abriu uma janela que ninguém lembrava de ter deixado destrancada.

Ela ficou parada diante do movimento.

Sentiu, sem esforço, que algo ia quebrar.

Não era um estrondo. Era mais sutil — como um galho que cede depois de muito resistir. O tipo de quebra que não pede testemunha, mas altera o que sustenta.

E quando quebrou, trouxe o calor.

Um calor estranho, deslocado, quase fora de época. Como se o verão tivesse chegado antes de ser chamado, empurrado por uma força que não era escolha. O ar ficou mais leve. Respirar já não exigia tanto.

Ela pensou que talvez fosse isso — o tal pedaço encontrado.

Mas o inverno não foi embora.

Ficou rondando, teimoso, encostado nos cantos da casa, nos objetos que não mudaram, nas memórias que não acompanharam a transformação. O inverno queria o que já tinha sido. Insistia, em silêncio, que ainda havia algo ali que lhe pertencia.

E havia.

Ele percebeu isso numa noite em que ela riu — um riso que não era o mesmo, mas também não era totalmente outro. Havia um eco antigo ali, uma lembrança do que tinham sido antes de qualquer vento.

Foi nesse intervalo que ele entendeu, ainda que sem palavras: quando alguém muda, não leva tudo consigo. Sempre fica algo — espalhado, esquecido, ou guardado em lugares onde o outro ainda pode tocar.

Mas tocar não significa recuperar.

Eles seguiram assim, atravessados por estações que não se organizavam mais como antes. O verão aparecia sem aviso, o inverno se recusava a sair. E entre um e outro, havia esse território instável onde os dois ainda existiam — não como eram, nem como seriam.

Apenas como aquilo que restou depois da mudança.

E isso, curiosamente, ainda era alguma forma de permanência.

Silvia Marchiori Buss

 

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