O Que Ficou nos Caminhos
Não foi de repente que ela começou a procurar.
Também não havia um ponto exato de partida — como se a busca tivesse nascido
antes dela, e apenas a tivesse escolhido para continuar.
Ela
caminhava muito. Não por gosto. Por necessidade de não ficar. Havia ruas que já
sabiam seu passo, vitrines que refletiam sempre a mesma figura um pouco
deslocada, e bancos de praça onde o corpo pousava sem descanso.
Dizia
para si mesma que procurava alguém.
Mas nunca soube descrever quem.
Às
vezes, era um rosto entrevisto no reflexo de uma janela à noite. Outras, um
gesto — a forma como alguém segurava uma xícara, ou virava o rosto ao ouvir o
próprio nome. Pequenos sinais que faziam o coração avançar um passo à frente do
corpo.
E
então, nada.
Ela
seguiu assim por estações inteiras. Aprendeu o frio que não vem do clima, o
calor que não consola. Guardava detalhes inúteis: o som de uma porta fechando
ao longe, o cheiro de roupa limpa em um corredor desconhecido, a cor exata de
um fim de tarde que parecia prometer alguma coisa.
Houve
um dia em que parou.
Não
por decisão.
O corpo simplesmente recusou mais um passo.
Sentou-se
num banco de madeira gasto, desses que já viram mais partidas do que encontros.
À frente, uma rua comum — gente passando, sacolas, vozes atravessando o ar sem
destino.
Foi
então que a viu.
Do
outro lado da rua, parada diante de uma vitrine sem graça, havia uma mulher.
Nada nela chamava atenção de imediato — e ainda assim, havia algo que não pedia
nome.
Ela
não atravessou.
Ficou
olhando, como quem teme estragar o que ainda nem começou.
A
mulher também não fazia nada. Apenas permanecia. Inteira, sem esforço.
E
isso bastou para suspender o movimento.
O
tempo seguiu sem pedir licença. A luz mudou um pouco, um ônibus passou, alguém
falou alto ao telefone. Quando ela decidiu atravessar, foi sem urgência.
Mas
do outro lado, já não havia ninguém.
A
vitrine devolvia apenas o trânsito da rua e um reflexo discreto.
Ela
ficou ali.
Não
procurou ao redor.
Não tentou entender.
Ajustou
o casaco, como quem se lembra do próprio corpo, e olhou mais uma vez para o
vidro.
Depois
saiu.
Sem
retomar a pressa de antes.
Sem também ter chegado a lugar algum.
A
cidade continuava aberta, indiferente.
E,
ainda assim, havia menos peso nos passos.
Silvia
Marchiori Buss
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