Dois Estranhos Quase Reais

Eles se encontraram numa noite em que a casa estava silenciosa demais.

Ela não buscava ninguém. Apenas clicava. Rolava a tela como quem passa os dedos numa estante de livros sem intenção de escolher. Ele escreveu primeiro — uma frase simples, quase burocrática. Mas havia um ritmo naquela frase. Um cuidado.

Ela respondeu.

No começo, eram horários desencontrados. Ele acordava quando ela já pensava em dormir. Ela escrevia quando ele estava no intervalo do trabalho. Eram mensagens que se cruzavam como aviões no céu noturno: não se viam, mas sabiam que o outro estava ali, em algum ponto da escuridão.

Não trocaram fotos de imediato. Nem vozes. Era melhor assim. Havia uma liberdade no desconhecimento. Ele podia imaginá-la com o cabelo preso ou solto, rindo com a cabeça inclinada para trás. Ela podia inventar o timbre da voz dele — grave, talvez, ou com um riso contido no canto da frase.

Falavam de coisas pequenas. Café forte demais. A chuva que demorava a chegar. Um filme antigo visto pela terceira vez. E, de repente, sem aviso, falavam de coisas que não se contam nem aos amigos de décadas: medos que não têm nome, a sensação de andar pela própria casa e sentir falta de alguém que já não está.

Era estranho como confiavam.

Ela começou a esperar o aviso luminoso na tela como quem espera o carteiro antigamente. Ele passou a escrever textos mais longos, como se temesse que o silêncio apagasse o que estavam construindo.

Um dia, ele sugeriu:
— Devíamos nos encontrar.

A frase ficou suspensa entre os dois por horas. Não havia ironia. Nem pressa. Apenas a constatação de que aquilo que era feito de palavras talvez precisasse de matéria.

Ela imaginou o encontro num café discreto, mesa pequena, duas xícaras e um constrangimento inevitável. Imaginou o susto: e se ele fosse menor do que nas palavras? E se ela fosse maior do que nas expectativas? E se o brilho fosse só da tela?

Ele também imaginou. Pensou na possibilidade de não reconhecer nela o que reconhecia nos textos. Pensou no risco de o silêncio presencial ser pesado demais para duas pessoas que só sabiam se tocar por frases.

Marcaram.

No dia, ela escolheu uma roupa neutra. Ele chegou antes. Sentou perto da janela. Olhava cada mulher que entrava como quem procura um rosto já conhecido, mas nunca visto.

Ela entrou.

Houve um segundo — um único segundo — em que ambos perceberam que eram reais. Mais baixos do que a imaginação. Mais cansados. Mais humanos.

Sorriram.

Conversaram com delicadeza, como se estivessem aprendendo um idioma novo. A voz dele era diferente do que ela inventara. A risada dela era mais breve. Houve pausas que a internet nunca permitirá.

Mas havia algo ali.

Não era o mesmo encanto elétrico das mensagens. Era outro tipo de presença — menos brilhante, mais densa. Como se as palavras tivessem ganhado peso.

Quando se despediram, não prometeram nada.

Naquela noite, ele escreveu:
— Foi bom ver você.

Ela respondeu:
— Foi diferente.

E ficaram algum tempo sem escrever. Como se precisassem reaprender o espaço.

Os encontros virtuais são assim: começam na imaginação e terminam — às vezes — na realidade. E quando atravessam essa fronteira, nunca saem ilesos. Ou se aprofundam. Ou se desfazem como névoa ao sol.

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Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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