Descompasso

 Havia um leve atraso em tudo que dizia respeito a ela, mas não era o tipo de atraso que se explica com relógio — era mais fundo, mais discreto, quase um desvio interno que não se via de fora.

Durante um tempo, ela tentou ajustar. Adiantava passos, respondia antes, chegava no horário certo, ocupava os espaços como se ainda soubesse onde colocar as mãos, o olhar, o silêncio. Funcionava o suficiente para que ninguém estranhasse. Funcionava o suficiente para que ela mesma demorasse a perceber.

Ele ainda estava ali.

Mas havia sempre um pequeno intervalo entre o que ele dizia e o que nela acontecia. Não era distração. Era como se as palavras precisassem atravessar uma distância maior do que antes — um caminho que, em algum momento, tinha se alongado sem aviso.

Ela continuava escutando.

E respondia, quase sempre. Com cuidado. Com uma atenção que beirava o cálculo. Não por frieza, mas porque qualquer gesto em falso parecia capaz de denunciar aquilo que ainda não tinha nome.

O descompasso não gritava.

Aparecia nas pausas ligeiramente longas, no toque que não encontrava o outro por segundos mínimos demais para serem questionados, na maneira como dois corpos dividiam o mesmo espaço sem, de fato, habitá-lo juntos.

E, ainda assim, havia permanência.

A mesa seguia posta para dois... não era expectativa, era uma espécie de continuidade automática. O copo dele permanecia no mesmo lugar, mesmo quando ficava intocado. A cadeira guardava um contorno que já não era ocupado do mesmo jeito.

Ela não mudava nada.

Como se alterar os objetos fosse admitir que o tempo já tinha mudado por conta própria.

Houve uma noite em que ele falou mais do que o habitual. Palavras soltas, histórias sem urgência, comentários que antes encontrariam nela alguma resposta imediata. Ela ouviu tudo, acompanhou, concordou onde parecia necessário. Mas, por dentro, cada frase chegava com um pequeno atraso, como se viesse de um lugar mais distante do que ele próprio.

E aquilo não a doía.

O que incomodava era outra coisa — a precisão com que ela conseguia continuar, mesmo assim.

Como se tivesse aprendido a existir ligeiramente fora do tempo sem interromper a aparência de sintonia.

Dias depois — ou talvez fosse o mesmo dia estendido — ela se viu parada diante da porta, sem lembrar exatamente se tinha acabado de chegar ou se ainda não tinha saído. Não havia urgência em definir. Havia apenas aquela sensação de estar sempre um pouco depois do momento certo.

Ele passou por ela nesse instante. Disse algo simples, cotidiano, sem peso. Ela respondeu.

Mas, quando a resposta veio, já não coincidiu com o instante em que ele ainda estava ali para ouvir.

Ele seguiu.

Ela ficou.

Não por decisão.

Era como se o corpo dela precisasse de um tempo a mais para acompanhar o que, no mundo, já tinha acontecido, talvez fosse isso.

Não uma ausência, não exatamente uma perda, mas esse desencaixe quase imperceptível entre o que ocorre e o que nela se move.

Mais tarde, na rua, ela percebeu o movimento das pessoas — atravessando no momento exato, obedecendo a sinais que mudavam com uma lógica que ninguém questiona. Tudo parecia funcionar dentro de um ritmo comum, compartilhado, previsível.

Ela tentou seguir.

Ajustou o passo, olhou o semáforo, calculou o tempo. Por alguns segundos, conseguiu.

Mas algo escapava.

Um detalhe mínimo — o pé que hesitava antes de avançar, o olhar que demorava um pouco mais do que o necessário, a respiração que não acompanhava o resto.

Ela atravessou assim mesmo.

Sem pressa de corrigir.

Como quem já não busca mais acertar o tempo, apenas continuar dentro dele, mesmo que ligeiramente fora de compasso.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

 

 

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