Cordas em Desalinho

Há dias em que tudo parece fora de tom.

Não é algo que se veja. Não está no corpo de maneira evidente, nem nos objetos ao redor. Mas há uma espécie de desalinho que percorre o dia — nas palavras que não encaixam, nos gestos que chegam tarde, nos silêncios que pesam mais do que deveriam.

Talvez seja isso que chamam de desajuste das cordas.

Gosto de imaginar que somos como um instrumento antigo, desses que atravessam gerações. Não nascemos prontos. Vamos sendo afinados pelo toque do tempo, pelas mãos que nos encontram, pelas ausências que nos atravessam. Cada encontro puxa um pouco uma corda. Cada perda afrouxa outra.

E, mesmo sem perceber, vamos vibrando.

Há quem diga — e não parece absurdo — que estamos ligados por fios invisíveis. Como se cada pessoa que passa por nós deixasse um pequeno nó, uma tensão, uma memória que continua vibrando mesmo depois da despedida. Não se trata de algo místico demais. É quase físico. Basta lembrar de alguém para que algo em nós se mova.

Uma corda responde.

Talvez não sejam cordas como imaginamos. Talvez seja algo mais amplo, como um campo que nos atravessa e nos mantém, uma espécie de tecido invisível onde tudo, de algum modo, se toca — mesmo à distância.

O problema é que nem sempre cuidamos dessa afinação.

Às vezes, deixamos que alguém toque com descuido. Às vezes, somos nós mesmos que apertamos demais, tentando arrancar um som que já não é possível. E há também os dias em que simplesmente abandonamos o instrumento num canto, como se não valesse mais o esforço de escutar o que ainda pode sair dali.

É aí que o som falha.

Não de forma dramática. Não há um rompimento claro. Mas a música perde densidade. Fica rasa, repetitiva, quase automática. Como se estivéssemos presentes apenas pela metade.

E, curiosamente, isso costuma acontecer depois de pequenas decepções. Nada grandioso. Um gesto que não veio, uma palavra que faltou, um cuidado que não foi devolvido. Coisas mínimas, mas suficientes para desalinharem aquilo que vinha funcionando em silêncio.

Então começa um tipo de sabotagem discreta.

A gente se afasta um pouco mais do que precisava. Responde menos do que gostaria. Evita onde antes permanecia. E, sem perceber, vai soltando as próprias cordas — como se assim doesse menos.

Mas não deixa de vibrar.

Porque o que nos liga não se desfaz com facilidade. Mesmo frouxas, as cordas ainda respondem. Ainda ecoam quando algo as alcança. Ainda guardam a possibilidade de som.

Talvez o mais difícil não seja tocar bem.

Talvez seja ter coragem de reapertar.

Ajustar o que ficou solto. Reconhecer onde fomos nós que desorganizamos o próprio ritmo. Aceitar que algumas cordas não voltarão ao que eram — e, ainda assim, insistir no gesto de afinar o que restou.

Não para alcançar perfeição.

Mas para que, em algum momento — mesmo breve, mesmo imperfeito — algo volte a soar inteiro.

Como um acorde que não se explica.

Apenas acontece.

Silvia Marchiori Buss

 

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